poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

                               (do verão)


não

 

não era um anjo

do senhor

através da janela aberta

abrindo as mãos

abrindo as asas

 

era uma melga

uma luz da rua

 

ou talvez calor


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

o que amas

falará por ti

 

então

entrega-te com apego


como se fosses uma árvore

ou um lugar muito antigo

e secreto

 

e já que

em breve serás

múltiplo do longe

 

ama o que agora

te parece perto

terça-feira, 4 de outubro de 2022

              (espécie de auto retrato)

nunca teve olhos

senão para longe

 

vida de peixe

em coração de homem

 

o tanto que lhe ficou

por dizer ao seu gato

 

as demasiadas faltas

com os filhos

 

que tudo passou

quase rápido

 

tudo desarrumado

e à pressa

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

sou a mão

 

mas sou igualmente

a tua sombra

 

pode dizer-se

que venho morar

contigo

 

alcançar-te onde

não possas ver-me

 

pois nenhum coração

vive sozinho

hoje é verão

 

disse-me um anjo

segurando o sol

numa mão

 

também há chuva

no verão

 

perguntei

 

e o anjo abriu

a outra mão

domingo, 2 de outubro de 2022

senhor

faz-me pobre

em palavras e arranjos

 

e de entre

todos os nomes

o que nenhuma palavra

tenha

 

e dá-me o dom

de alcançar-te

no coração

 

como um gato

um pássaro

ou um animal que passa

 

e consigo leva apenas

a tua sombra

aqueles

que são comigo

nem sempre são

os que me ouvem

 

comigo estiveram

sempre e mais

os que me subiram

na cruz

 

esses

que vieram das ruas

e através das casas

 

e cuspiram

até morte