sou a mão
mas
sou igualmente
a
tua sombra
pode
dizer-se
que
venho morar
contigo
alcançar-te
onde
não
possas ver-me
pois
nenhum coração
vive
sozinho
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
eu cresci
a brincar com longe
nos insectos nas ervas
e na lua
longe e eu
fazíamos longes
de tudo
e mais alguma coisa
quando
me tornei poeta
quis mostrar aos outros
que longe
é múltiplo do perto
e assim
os meus filhos
são múltiplos de mim
até perder de vista
há também
a fábrica do tudo
mas hoje
não vou falar dela