poesia, Carlos Lopes Pires

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

sou a mão

 

mas sou igualmente

a tua sombra

 

pode dizer-se

que venho morar

contigo

 

alcançar-te onde

não possas ver-me

 

pois nenhum coração

vive sozinho

hoje é verão

 

disse-me um anjo

segurando o sol

numa mão

 

também há chuva

no verão

 

perguntei

 

e o anjo abriu

a outra mão

domingo, 2 de outubro de 2022

senhor

faz-me pobre

em palavras e arranjos

 

e de entre

todos os nomes

o que nenhuma palavra

tenha

 

e dá-me o dom

de alcançar-te

no coração

 

como um gato

um pássaro

ou um animal que passa

 

e consigo leva apenas

a tua sombra

aqueles

que são comigo

nem sempre são

os que me ouvem

 

comigo estiveram

sempre e mais

os que me subiram

na cruz

 

esses

que vieram das ruas

e através das casas

 

e cuspiram

até morte

sábado, 1 de outubro de 2022

eu cresci

a brincar com longe

 

nos insectos nas ervas

e na lua

 

longe e eu

fazíamos longes

de tudo

e mais alguma coisa

 

quando

me tornei poeta

quis mostrar aos outros

que longe

é múltiplo do perto

 

e assim

os meus filhos

são múltiplos de mim

até perder de vista

 

há também

a fábrica do tudo

 

mas hoje

não vou falar dela

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

sentei-me

e abri as mãos

para que viesses

 

e tu vieste

 

tu vens sempre

com o sol

ou através da chuva

 

depois fechei

os olhos

 

e fechei-os tanto

para que não te fosses

 

que desde há muito

já não te vais

 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

se havia mar

não dei por ele

 

era talvez verão

 

ou outra coisa

que ainda não fosse tarde

 

setembro sobre os muros

o sol através das mãos

 

e a vida desprendia

um sossego muito antigo

 

era aí

que eu dormia