poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 27 de outubro de 2026

 

estou aqui

a contemplar o mundo

 

e nenhuma porta

se abre

 

nenhuma estrada

para ver o longe

 

não parti

nem cheguei

de uma viagem

 

não sinto o vento

nem movo as mãos

 

tenho o coração

ocupado

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 

o dia

em que te foste

 

foi também o dia

em que eu

me fui

 

para trás deixaste

uma fotografia

que tem

escrito

 

hei de amar-te

sempre

domingo, 25 de outubro de 2026

 

uma criança

abre a mão

e solta um pássaro

 

depois abre

outra mão

e o sol regressa

 

não

não é magia

nem é outra vez

o pessegueiro

 

é como nascem

os poemas

 

longe daqui

há uma guerra

de que ainda não sei o nome

 

passa-se num país

sem laranjas

 

é onde não há crianças

e chamam pássaros

às suas sombras

 

não há mães nem pais

 

foi por veredas sem fim

que se foram

e já não os deixam voltar

 

e para onde foram as flores

 

em seu lugar agora

é onde crescem trincheiras

 

sábado, 24 de outubro de 2026

 

vive dentro da água

 

e talvez nem os peixes

conheçam

 

é apenas nas cores

o verde o branco

 

o azulado

que vem

através dos olhos

 

mas a cor

 

a sua cor preferida

é o silêncio