poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

devíamos calar-nos mais

 

notar como cada coisa

é lenta na subida

e rápida quando cai

 

que nada se afasta

do seu fim

 

e cada fim

é uma pedra cega

 

381

 

conheço bem os velhos

 

há muito que me dou

com eles

 

e quando o tempo

se tornou excessivo

 

ouvi os seus passos

vindo através das árvores

 

e foram as minhas mãos

 

foram as minhas mãos

trocando flores com

as suas

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

377

 

no que respeita

a Deus

 

há quem diga

que nos meus

poemas

 

há uma no cravo

e outra na ferradura

 

e eu aceito

 

quando a porta

se abriu

 

havia ninguém

na rua

 

374

 

palhaço

que nos dás hoje

alguma coisa de comer

 

e que para todo o sempre

julgamos ser

os teus palhaços

preferidos

 

que por ti

e depois de ti

fizemos este circo

a que chamamos vida

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 

                                             para a lídia bacelar

a menina

do retrato

sorri

 

deitada na areia

contempla a

infância

 

algumas gaivotas

flutuam sobre

as ondas

 

ou pousaram

sobre a beira-mar

e não ficaram

no retrato

 

a menina

sorri-lhes

 

o que não se vê

 

é sempre o

que fica

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 

amigo

é aquele

que nunca se foi

 

passageiro

da tua dor quando

te apedrejam

 

aquele que nunca

o teu nome

gasta

 

a vida é um

empreendimento

 

a morte é o

produto acabado

do projecto que nunca

 

foi terminado