desde há dias que
vivo num mundo de
papel
hoje vou falar do
pássaro
voa pássaro de
papel
leva sol onde
existam corações
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
imagina alguém
que sobre o seu rosto coloca camadas de efeitos e produtos a que chamam
cosmética. isso é o mundo em que vivemos e é, igualmente, o que define a poesia
literária. essa cosmética pretende propor cambiantes e aparências e assim representar
o mundo, a partir de uma espécie de ilusionismo. quando os poemas não são
literários, o que fazem é retirar essas camadas, para que o mundo possa falar. um
poema escuta o mundo. não o representa. é também por isto que à poesia com
literatura falta ética do bem. o poema é um acontecimento do mundo dentro da
linguagem