no dia que
Deus chegou à
folha de papel os
cegos viram e
os outros cegaram
onde
estavas
perguntou o
desenho do
homem
azul
estava na outra
página
Deus disse
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
recordo que em
criança
às vezes desenhava
numa folha de papel muito branca
as várias cores de
Deus
desenhava quase
tudo
um caminho
uma casa com o
telhado inclinado
um sol
e uma montanha
ao fundo
um rio e
pessoas que passavam
de lado a olhar para mim
havia até um cão
ou talvez um gato
e ao terminar o desenho
todo
ficava sempre
nada