poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

 

dei-te o meu coração

é certo

 

e desde então

vivo sem ele

 

antigamente

era como um relógio

e fazia-me falta

 

mas depois tu vieste

e levaste os meses

 

todos

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

iluminai os pássaros

mas pouco

 

que a eles basta

voar

 

iluminai as flores

antes que termine o dia

 

iluminai em cada

coisa a sua casa

 

e em cada homem

o seu lugar de

chegada

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 

foi-me dito

por sinais

 

que virás mais tarde

ou talvez nem venhas

 

e então eu soube

 

soube

só por saber

 

que hei de chover

para que nada te falte

 

e hei de morrer

apenas por saber

 

que tudo acaba

onde tu começas

terça-feira, 27 de outubro de 2026

 

estou aqui

a contemplar o mundo

 

e nenhuma porta

se abre

 

nenhuma estrada

para ver o longe

 

não parti

nem cheguei

de uma viagem

 

não sinto o vento

nem movo as mãos

 

tenho o coração

ocupado

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 

o dia

em que te foste

 

foi também o dia

em que eu

me fui

 

para trás deixaste

uma fotografia

que tem

escrito

 

hei de amar-te

sempre

domingo, 25 de outubro de 2026

 

uma criança

abre a mão

e solta um pássaro

 

depois abre

outra mão

e o sol regressa

 

não

não é magia

nem é outra vez

o pessegueiro

 

é como nascem

os poemas

 

longe daqui

há uma guerra

de que ainda não sei o nome

 

passa-se num país

sem laranjas

 

é onde não há crianças

e chamam pássaros

às suas sombras

 

não há mães nem pais

 

foi por veredas sem fim

que se foram

e já não os deixam voltar

 

e para onde foram as flores

 

em seu lugar agora

é onde crescem trincheiras