poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 25 de outubro de 2026

 

uma criança

abre a mão

e solta um pássaro

 

depois abre

outra mão

e o sol regressa

 

não

não é magia

nem é outra vez

o pessegueiro

 

é como nascem

os poemas

 

longe daqui

há uma guerra

de que ainda não sei o nome

 

passa-se num país

sem laranjas

 

é onde não há crianças

e chamam pássaros

às suas sombras

 

não há mães nem pais

 

foi por veredas sem fim

que se foram

e já não os deixam voltar

 

e para onde foram as flores

 

em seu lugar agora

é onde crescem trincheiras

 

sábado, 24 de outubro de 2026

 

vive dentro da água

 

e talvez nem os peixes

conheçam

 

é apenas nas cores

o verde o branco

 

o azulado

que vem

através dos olhos

 

mas a cor

 

a sua cor preferida

é o silêncio

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 

passamos muito

tempo a fazer

coisas que se

repetem

 

gostaria de

rezar mais

vezes

 

senhor

 

ao contrário de

outros eu não te

venero

 

nem falo em

teu nome ou em

promessas

 

nunca conquistei em

teu nome ou matei

 

nem te culpo pela

tua inexistência

 

aceito as

tuas imperfeições e

ausência e jamais te

comprometo com os

meus erros

 

acima de tudo

há muito que te libertei dos

meus compromissos

 

tu és a minha falta

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

 

hoje fiz

um auto retrato

 

como não tenho

jeito para pintar imaginei

uma foto comigo de

costas

 

depois desenhei um

pássaro um gato e

uma outra coisa

que não sei o

que é

 

no fim

pintei tudo de

muito escuro para

parecer de

noite

 

e de noite todos

os gatos são pardos

 

hão de dizer que

estou parecido