poesia, Carlos Lopes Pires

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

 

onde estás coração

que não te sinto

palpitar

 

foi o sol

que esta tarde

te levou de minhas mãos

 

foi um sinal

ao fundo da estrada

 

foi um risco

na água

 

ou a casa inclinada

até ao chão

 

e não obstante

 

uma canção

que na branca cal

 

iluminada

sábado, 31 de outubro de 2026

 

amo-te

como se fosses

de um outro mundo

 

e és

 

porque tu

não trazes apenas

as sombras

 

tu trazes a luz

 

às vezes chove

mas o que é a chuva

senão um modo

de ser

 

a tua luz

 

e por isso sei

que há de haver

um outro mundo

 

ou talvez um lugar

de onde venhas

 

e onde esteja tudo

o que me falta

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

 

dei-te o meu coração

é certo

 

e desde então

vivo sem ele

 

antigamente

era como um relógio

e fazia-me falta

 

mas depois tu vieste

e levaste os meses

 

todos

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

iluminai os pássaros

mas pouco

 

que a eles basta

voar

 

iluminai as flores

antes que termine o dia

 

iluminai em cada

coisa a sua casa

 

e em cada homem

o seu lugar de

chegada

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 

foi-me dito

por sinais

 

que virás mais tarde

ou talvez nem venhas

 

e então eu soube

 

soube

só por saber

 

que hei de chover

para que nada te falte

 

e hei de morrer

apenas por saber

 

que tudo acaba

onde tu começas

terça-feira, 27 de outubro de 2026

 

estou aqui

a contemplar o mundo

 

e nenhuma porta

se abre

 

nenhuma estrada

para ver o longe

 

não parti

nem cheguei

de uma viagem

 

não sinto o vento

nem movo as mãos

 

tenho o coração

ocupado

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 

o dia

em que te foste

 

foi também o dia

em que eu

me fui

 

para trás deixaste

uma fotografia

que tem

escrito

 

hei de amar-te

sempre