poesia, Carlos Lopes Pires
encontrei
o teu retrato
no
meu coração
não
foi na cómoda
nem
na parede
ou
nos lugares que antes
me
pareciam grandes
foi
na varanda virada
a
sul
quando
as últimas horas
de
verão traziam
a
tua voz
o
retrato a sépia
de
que nunca
voltaste
mãe
quando fiz
amizade
com a rã
disseram-me
coisas
mas eu não
troco essa
amizade
por coisas
onde estás coração
que não te sinto
palpitar
foi o sol
que esta tarde
te levou de minhas mãos
foi um sinal
ao fundo da estrada
foi um risco
na água
ou a casa inclinada
até ao chão
e não obstante
uma canção
que na branca cal
iluminada
amo-te
como se fosses
de um outro mundo
e és
porque tu
não trazes apenas
as sombras
tu trazes a luz
às vezes chove
mas o que é a chuva
senão um modo
de ser
a tua luz
e por isso sei
que há de haver
um outro mundo
ou talvez um lugar
de onde venhas
e onde esteja tudo
o que me falta
dei-te
o meu coração
é
certo
e
desde então
vivo
sem ele
antigamente
era
como um relógio
e
fazia-me falta
mas
depois tu vieste
e
levaste os meses
todos
iluminai os pássaros
mas pouco
que a eles basta
voar
iluminai as flores
antes que termine o dia
iluminai em cada
coisa a sua casa
e em cada homem
o seu lugar de
chegada
foi-me dito
por sinais
que virás mais tarde
ou talvez nem venhas
e então eu soube
soube
só por saber
que hei de chover
para que nada te falte
e hei de morrer
apenas por saber
que tudo acaba
onde tu começas