poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

1

 

esta noite

fui visitado por um anjo

 

e ele disse-me

 

cala-te

e vem comigo

ao grande sítio das coisas

que não há

 

das coisas

que cantam

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 

inclina-te devagar

até ao chão

 

é aí que mora o

silêncio

 

escuta-o

como a uma

formiga muito velha

 

pois o sol é um

lugar antigo

 

e a sua morte ainda

não tem

nome

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

o mundo não é

uma fotografia

que nós

 

olhamos

 

a beleza de um

figo não é só

de quem

o olha

 

o gosto não está

apenas na boca

 

tudo vem

de muito longe

 

e não chega

a parte alguma

 

somos lugares

de passagem

 

e silêncio

 

certa vez um

gafanhoto quis

alcançar uma nuvem

 

ou seria a

luz de um candeeiro

 

saltou o

mais que pôde

e tornou-se

luz

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 

van gogh morreu

muito antes de

saber quem era

 

uma coisa assim

acontece uma vez ou

outra

 

quase sempre


 

não te conheço

 

é assim que a vida começa

 

uma casa uma sombra

ou era uma vez um rio

 

só depois o corpo

nomeia tudo o que

não conhece

 

o som das videiras

o porquê das coisas

um abraço

um beijo

 

um caminho que fazes

e que talvez seja

o teu regresso

 

a mão escondida

é a tua profecia

domingo, 20 de setembro de 2026

 

perdoa

a quem te criou

igual a nós

 

traiçoeiro como nós

malvado como nós

 

arrogante e má língua

como nós

 

igreja erguida

 

sobre os despojos

da intolerância