poesia, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 

428

 

vi passar um homem

em chamas

 

no chão um corpo

sem cabeça

 

prédios e gemidos

lado a lado

 

o sol escondeu-se

numa caixa

de pó

 

então é isto

que chamam

guerra

 

podíamos talvez

chamar-lhe

gospel

 

e cantávamos

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

se eu chorar contigo

promete

 

que voltarás

para mostrar-me

as tuas mãos

 

ou talvez queiras

dar-me o teu

coração

 

nesse caso

 

voltarei eu para

estar contigo

 

os dois

lado a lado

à espera do verão

 

aqueles que seguem

outras estradas

 

não são diferentes

de ti

 

são apenas mãos

que se afastam

 

também

elas procuram

os desertos

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

429

 

vivi junto a um charco

 

de noite

ouvia as rãs

quando as casas

se calavam

 

havia também uma voz

que vinha de muito longe

e mal se ouvia

 

às vezes

 

ainda a ouço

cantar

domingo, 30 de agosto de 2026

 

412

 

que te recordes de mim

quando abras as janelas

nos dias frios

 

e me dizias

oxalá não chova

 

oxalá

não venhas tarde

 

quieto

o coração

 

407

 

se um homem é isto

 

uma casa que viu

crescer as suas mãos

 

uma rua que era grande

e se tornou depois

pequena

 

e que em cada cidade

há sempre mais uma rua

que se parece às outras

 

e já velho soube

 

que nenhuma rua

acaba aqui

sábado, 29 de agosto de 2026

 

quando o anjo

chegou à cidade

 

ninguém o viu

 

é natural

dizes

tu

 

pois os anjos

não existem