poesia, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, 15 de maio de 2019

importa-te
em ter coisas
que não existam

pois importante
não é o que levas
nas mãos

mas o que nelas se abre
e transforma

importante
não é o que tens

mas o que falta

terça-feira, 14 de maio de 2019

as crianças do meu quintal
fazem prodígios
com as mãos

e por onde vão
iluminam as sombras
e os frutos das árvores

voam pelo ar
escondem-se no tempo

crescem rosas e nêsperas
na tarde quente

sexta-feira, 10 de maio de 2019

luca pensou que Deus
fosse um brinquedo

e guardou-o entre as mãos
como um segredo que ninguém
mais via

e ninguém podia ver
aquela espécie de magia
que se movia entre os dedos

e os seus olhos
iluminados

quinta-feira, 9 de maio de 2019

sexta-feira, 3 de maio de 2019

pai que estás no céu

guarda-me de querer viver
outra vez

igual seja
aos pássaros e aos gatos
que se movem no ar
sem pretensões

nada repetido
e nada que seja demais

e me deixes saber
que basta um coração
para tudo o que vale a pena

uma porta de entrada
e um abraço à saída


domingo, 28 de abril de 2019


não creio em nenhuma das palavras

que te trazem ali
nem nas multidões que vão fazer-se
nem nos outros que te esperam
uns de negro outros não

representantes que todos são
de quem nunca nada
amou no outro
e ainda menos
no seu próximo

estórias e dias de mentiras
em que a pobreza jaz fundo
e muito por debaixo
de uma árvore

por isso te digo
prefiro a chuva

quinta-feira, 25 de abril de 2019


Mas o que é um amigo? O que é essa coisa chamada amizade? Que espécie de sentimento é este, que nos faz crer tanto nos amigos, confiar neles como se donos fossem de poderes especiais? Partilhar com eles alegrias, dores ou sofrimento? Que magia há nos amigos, pergunto-vos, que nos faz crer que tudo neles é transparente e luminoso?

Ao longo da minha vida tenho assistido a alguns factos muito misteriosos. Um amigo tem poderes curativos sobre nós, prolonga-nos a vida, protege-nos da chuva quando nos dá a mão ou toca um ombro. Se estamos tristes ele chega e com uma palavra impronunciável cura-nos da tristeza. Inexplicavelmente, os amigos têm o poder de saciar-nos da fome ou da sede. Quando estamos exaustos, tão cansados, vêm junto de nós e sorriem, e então vamos por onde vamos. Os amigos fazem-nos crer em coisas que só existem para eles e partilham-nas, repartem-nas com as mãos, e tornam-se nossas também.

Os amigos não precisam de cartas de recomendação, de juramentos ou palavras de honra. O que dizem serve uma vez e para sempre. Aos amigos perdoamos o que não se perdoa a ninguém, pois aos amigos outorgamos a bondade dos defeitos, o direito à imperfeição.

Os amigos não mentem: contam-nos versões da verdade. Aquilo que nos outros é mentira, nos amigos é força da imaginação. É que aos amigos liga-nos algo que não nos liga a ninguém: o segredo da amizade. Porque a amizade é uma coisa de magia, que purifica, compreende, transforma. A amizade cura.
Um amigo jamais esquece outro. Poderão passar anos, mas nem a morte pode separar-nos de um amigo, pois ele ficou connosco desde o primeiro abraço, desde a primeira vez que tocámos o ombro um do outro. Quando nos disse a palavra autêntica.

Amigo é aquele que espera de mim humanidade e comigo partilha a sua. Não espero de um amigo que seja santo ou flutue acima dos telhados da cidade. De um amigo espero apenas a bondade do seu pedaço de humanidade; o perdão, a compreensão pelo meu pedaço de humanidade. Que seja para mim uma metade e eu a outra que sou para ele. E que seja de todos o mais próximo de mim. Que aceite os meus erros e fraquezas e me retribua com o seu abraço de imensa grandeza. E por isso digo que a amizade é uma coisa abençoada. Não é algo que se compre, se troque, se venda ou peça emprestada. A amizade é uma dádiva, e não tem peso ou medida. A amizade não é calculista. Não depende disto ou daquilo. Ela é simplesmente o que é, pois a amizade é inocente, e só o que é inocente perdura.

A amizade não se mede por palavras. Existem amizades silenciosas, recatadas, amigos que nos tocam de longe ou com simples gestos verdadeiros. A amizade não precisa de explicações. Ninguém sabe de onde vem, de que matéria é feita, mas todos sabem reconhecê-la quando chega. Não precisa de adjectivos, nem de justificações, e por vezes cai dentro de nós como um sentimento que nos torna muito maiores que a nossa própria vida. Se não temos amigos vivemos e morremos sozinhos.

E no dia da nossa morte, amigo seja aquele que pronuncia o nosso nome no silêncio do seu coração, e o diz como se perdesse uma coisa de valor incalculável.



Os amigos fazem crescer as árvores.