poesia, Carlos Lopes Pires

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

 

recordo que em

criança

 

às vezes desenhava

numa folha de papel muito branca

as várias cores de

 

Deus

 

desenhava quase

tudo

 

um caminho

uma casa com o

telhado inclinado

 

um sol

e uma montanha

ao fundo

 

um rio e

pessoas que passavam

de lado a olhar para mim

 

havia até um cão

ou talvez um gato

 

e ao terminar o desenho

todo

 

ficava sempre

nada

domingo, 27 de setembro de 2026

 

ouvi dizer

que Deus é

a palavra do senhor

 

e que esta pode vir

por linhas tortas

 

também

ouvi dizer

que Deus está

sempre connosco

 

só não ouvi dizer

em que parte de Deus

estamos

 

e se é a

qualquer hora

sábado, 26 de setembro de 2026

 

esta é a árvore

de que falo

 

e desenhei-a pequena

para que possas

vê-la

 

a gente chega sempre

tarde

 

onde quer que seja

 

alguma coisa

 

alguma coisa muito forte

nos tombou pelas

costas

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 

lacrau

 

conta-me

quem te deu o nome

e o chão que não podes

caminhar

 

que retrato é esse

onde não podes cantar

 

e cantas

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

1

 

esta noite

fui visitado por um anjo

 

e ele disse-me

 

cala-te

e vem comigo

ao grande sítio das coisas

que não há

 

das coisas

que cantam

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 

inclina-te devagar

até ao chão

 

é aí que mora o

silêncio

 

escuta-o

como a uma

formiga muito velha

 

pois o sol é um

lugar antigo

 

e a sua morte ainda

não tem

nome