tanta gente
que se divulga e mostra
tanta gente
que apregoa o seu nome
senhor
crucifica-me na janela
de minha casa
prega os meus pés
na parede de cal branca
pendura-me pelos olhos
na árvore mais alta
que houver
cala-me
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
194 /três poemas sobre o meu auto-retrato/
hoje fiz o
meu boneco
com uma rolha de
cortiça e dois
fósforos
para cabeça usei
uma azeitona
o coração não
se vê
anda
encontra
me
195
quase no final
do poema perguntas
onde estão
ouvidos nariz olhos
boca
e eu digo-te
esta azeitona é
lisa
então tu ris
te muito e eu
mergulho na piscina
196
comecei num
dia de verão
atravessei os campos
e brinquei nas eiras
da chuva fiz o abrigo
e a casa
mas em tudo
fui deserto
passaram-se
milhões de anos
e ainda não encontrei
a tua mão
13
quando tinha a idade
dos anjos
tinha quase tudo
o necessário
e tinha uma parede
de cal branca
que era o céu visto
de cima
dá-me as tuas mãos
dizia uma voz
aberta na parede
e dei-lhe a mão
dei-lhe a mão
oh não me faças chorar
pois dei-lhe a mão
e o coração
um grilo
uma formiga
uma sardanisca
e tinham tantos nomes
os anjos