poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

44

 

quem quiser fique

com a

taça

 

e com ela faça uma

casa um atalho ou

um baraço

 

pois através dela

eu vejo

 

os caídos os

derrotados os que

ficaram a meio

 

aqueles que

durante a subida ficaram

na paisagem

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

 

266

 

paul celan cavou no chão

 

nem flores nem pás

saros

 

apenas mortos

 

num quarto muito

escuro rezou

a um deus com os

nomes desses mortos

 

depois abriu

uma janela no mundo

 

e voou

para a terra de

ninguém

 

olá

terra de ninguém

domingo, 13 de setembro de 2026

perguntaram-me o que é "silêncio". silêncio é a presença anterior e posterior ao tempo, dentro e fora do espaço, que não começa nem termina, pois não tem causa, nem é causador. e a presença fala. a presença somos nós a falar e a pensar. a presença move-se: é o pássaro. a presença manifesta-se: é a luz. a presença não ouve, não deseja: somos nós. o silêncio não é aquilo que permanece quando tudo se cala. é aquilo que permanece porque tudo, inclusive o que fala, lhe pertence.


silêncio é a presença sem intenção

 

254

 

chego sempre tarde

aos lugares onde

não estás

 

olá

pássaro da manhã

sábado, 12 de setembro de 2026

 

sobrevivi

a umas quantas

coisas

 

mas não a ti

 

não cheguei

fui ou venci

 

antes da guerra

começar

 

já eu era

o vencido

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 

encontrei um pouco

de amor no chão

 

e pensei que fosse

o sol

 

toquei-lhe

muito ao de leve

 

era uma flor

era um gesto

 

e era

a tua mão

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 

toquei o teu rosto

em minhas mãos

 

toquei

o vaga-lume

 

toquei uma estrela

caída no chão

 

toquei a ferida

que tinhas

nas mãos

 

passaram-se

muitos

anos