poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 16 de agosto de 2026

 

a cultura não

serve para nada

 

o amor sim

 

a arte e a literatura

são uma perda de

tempo

 

o amor não

 

esvazia-te

 

ergue o mais que

possas as tuas mãos

abertas

 

e desenha um

poema

 

caso Deus exista

 

fala-lhe de mim

 

que embora eu não

creia na sua existência

 

lhe dou outros nomes

 

sol chuva rosa

abelha água

 

caminho do bem

 

silêncio

sábado, 15 de agosto de 2026

 

como plantares uma árvore

sem borda d’água

 

e sem ajuda de metáforas

 

plantas primeiro

um céu com nuvens

 

providencia que chova

um rio ou dois

 

e depois junta-lhe

um azul com muito

sol

 

pássaros

muitos pássaros

 

bichos insectos

e terra sem chão

pois as árvores gostam

de voar

 

de seguida aguarda

 

a árvore começa

a crescer por cima

 

dá-me a tua mão

 

e leva-me a ver

o sol

 

jura

que tudo

quanto amas em mim

 

é o pássaro

que se foi

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

senhor

 

ao contrário de

outros eu não te

venero

 

nem falo em

teu nome ou em

promessas

 

nunca conquistei em

teu nome ou matei

 

nem te culpo pela

tua inexistência

 

aceito as

tuas imperfeições e

ausência e jamais te

comprometo com os

meus erros

 

acima de tudo

há muito que te libertei dos

meus compromissos

 

tu és a minha falta

 

as metáforas são coisas

sobre outras coisas

 

nos meus poemas

não há coisas encavalitadas

 

se digo escaravelhos

é escaravelhos

 

se digo sol

se digo muros

 

a nada mais me refiro

 

os anjos dos meus poemas

não são pássaros

nem vaga-lumes

 

ou aparições

de almas penadas

 

não são

candeeiros da cidade

 

são apenas anjos

 

igualzinhos a ti

e a mim

 

só que voam

 

um anjo

apareceu-me e

disse

 

aqui estou

para que me saibas

 

quem te enviou

perguntei

 

foi a rã

 

e então

sangrei de mãos

pés

 

e coração