poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

senhor

 

ao contrário de

outros eu não te

venero

 

nem falo em

teu nome ou em

promessas

 

nunca conquistei em

teu nome ou matei

 

nem te culpo pela

tua inexistência

 

aceito as

tuas imperfeições e

ausência e jamais te

comprometo com os

meus erros

 

acima de tudo

há muito que te libertei dos

meus compromissos

 

tu és a minha falta

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 

por instantes

saíste do retrato

e abriste

os braços

 

e eu fui

 

fui através de ti

e do retrato

 

por um instante

toquei as tuas

mãos

domingo, 4 de outubro de 2026

 

agradeço os aplausos

 

na verdade

tantos anos a fazer de

conta que tenho coração

 

pele e talvez sangue

 

escrevendo poemas a

torto e a direito

 

confesso

 

não passo de um rabisco

numa folha de papel

vegetal

 

topam

sábado, 3 de outubro de 2026

 

no dia que

Deus chegou à

folha de papel os

 

cegos viram e

os outros cegaram

 

onde estavas

 

perguntou o

desenho do

homem

azul

 

estava na outra

página

 

Deus disse

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

era alegria e

era assim como

um sol que não se

via

 

mas havia as mãos

 

e era das mãos

que tudo vinha

 

os beijos as canções

e até a rosa que

 

se abria

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 

pergunto

se haverá alguém no

cosmos

 

se haverá alguém

que nos possa salvar

 

desta escuridão

tão grande

terça-feira, 29 de setembro de 2026

 

a minha mãe tinha

muita vergonha de

eu ser ateu

 

e então rezava muito

e pedia perdão

por mim

 

para que mesmo

depois de

morrer

 

Deus pudesse ouvir

a sua voz