poesia, Carlos Lopes Pires
conheço uma aldeia
onde todos somos imagens
até os gatos
atravessamos as casas
e o frio muito abraçados
e só conhecemos
um rio
hoje vim passear
com o pai
a mãe espreita
da janela
tu lês este poema
e não sabes
tu não sabes
que morri há muito
o meu nome está
à esquerda
quando
entras
futuro
é o passado
que ainda não
foi vivido
abre os olhos
mosca
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vi
passar um homem
em
chamas
no
chão um corpo
sem
cabeça
prédios
e gemidos
lado
a lado
o
sol escondeu-se
numa
caixa
de
pó
então
é isto
que
chamam
guerra
podíamos
talvez
chamar-lhe
gospel
e
cantávamos
se
eu chorar contigo
promete
que
voltarás
para
mostrar-me
as
tuas mãos
ou
talvez queiras
dar-me
o teu
coração
nesse
caso
voltarei
eu para
estar
contigo
os
dois
lado
a lado
à
espera do verão
aqueles que
seguem
outras estradas
não são
diferentes
de ti
são apenas mãos
que se afastam
também
elas procuram
os desertos
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vivi junto a um charco
de noite
ouvia as rãs
quando as casas
se calavam
havia também uma voz
que vinha de muito longe
e mal se ouvia
às vezes
ainda a ouço
cantar
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que
te recordes de mim
quando
abras as janelas
nos
dias frios
e
me dizias
oxalá
não chova
oxalá
não
venhas tarde
quieto
o
coração