poesia, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 

toquei o teu rosto

em minhas mãos

 

toquei

o vaga-lume

 

toquei uma estrela

caída no chão

 

toquei a ferida

que tinhas

nas mãos

 

passaram-se

muitos

anos

terça-feira, 3 de novembro de 2026

 

encontrei o teu retrato

no meu coração

 

não foi na cómoda

nem na parede

 

ou nos lugares que antes

me pareciam grandes

 

foi na varanda virada

a sul

 

quando as últimas horas

de verão traziam

a tua voz

 

o retrato a sépia

de que nunca

voltaste

 

mãe

 

quando fiz amizade

com a rã

 

disseram-me

coisas

 

mas eu não

troco essa amizade

 

por coisas

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

 

onde estás coração

que não te sinto

palpitar

 

foi o sol

que esta tarde

te levou de minhas mãos

 

foi um sinal

ao fundo da estrada

 

foi um risco

na água

 

ou a casa inclinada

até ao chão

 

e não obstante

 

uma canção

que na branca cal

 

iluminada

sábado, 31 de outubro de 2026

 

amo-te

como se fosses

de um outro mundo

 

e és

 

porque tu

não trazes apenas

as sombras

 

tu trazes a luz

 

às vezes chove

mas o que é a chuva

senão um modo

de ser

 

a tua luz

 

e por isso sei

que há de haver

um outro mundo

 

ou talvez um lugar

de onde venhas

 

e onde esteja tudo

o que me falta

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

 

dei-te o meu coração

é certo

 

e desde então

vivo sem ele

 

antigamente

era como um relógio

e fazia-me falta

 

mas depois tu vieste

e levaste os meses

 

todos

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

iluminai os pássaros

mas pouco

 

que a eles basta

voar

 

iluminai as flores

antes que termine o dia

 

iluminai em cada

coisa a sua casa

 

e em cada homem

o seu lugar de

chegada