poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

o mundo não é

uma fotografia

que nós

 

olhamos

 

a beleza de um

figo não é só

de quem

o olha

 

o gosto não está

apenas na boca

 

tudo vem

de muito longe

 

e não chega

a parte alguma

 

somos lugares

de passagem

 

e silêncio

 

certa vez um

gafanhoto quis

alcançar uma nuvem

 

ou seria a

luz de um candeeiro

 

saltou o

mais que pôde

e tornou-se

luz

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 

van gogh morreu

muito antes de

saber quem era

 

uma coisa assim

acontece uma vez ou

outra

 

quase sempre


 

não te conheço

 

é assim que a vida começa

 

uma casa uma sombra

ou era uma vez um rio

 

só depois o corpo

nomeia tudo o que

não conhece

 

o som das videiras

o porquê das coisas

um abraço

um beijo

 

um caminho que fazes

e que talvez seja

o teu regresso

 

a mão escondida

é a tua profecia

domingo, 20 de setembro de 2026

 

perdoa

a quem te criou

igual a nós

 

traiçoeiro como nós

malvado como nós

 

arrogante e má língua

como nós

 

igreja erguida

 

sobre os despojos

da intolerância

sábado, 19 de setembro de 2026

 

desde há dias que

vivo num mundo de

papel

 

hoje vou falar do

pássaro

 

voa pássaro de

papel

 

leva sol onde

existam corações

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

imagina alguém que sobre o seu rosto coloca camadas de efeitos e produtos a que chamam cosmética. isso é o mundo em que vivemos e é, igualmente, o que define a poesia literária. essa cosmética pretende propor cambiantes e aparências e assim representar o mundo, a partir de uma espécie de ilusionismo. quando os poemas não são literários, o que fazem é retirar essas camadas, para que o mundo possa falar. um poema escuta o mundo. não o representa. é também por isto que à poesia com literatura falta ética do bem. o poema é um acontecimento do mundo dentro da linguagem