poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 8 de dezembro de 2019

                 Aos 18 anos do falecimento de meu pai

já nunca és tu
quem me leva pela mão

é tudo muito quieto
e pequeno
agora

na vida
que te perdeu



quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

todos os dias te peço
que desças dessa parede

e caminhes entre os móveis
e os desenhos na janela

que me dês a tua mão
e nela um sinal
do prodígio

e depois
vás pelas ruas
e entre os homens

te saibam
e reconheçam

domingo, 17 de novembro de 2019

a amizade
é uma chuva de quase

uma coisa que passou
e nos tocou

não se desse o caso
da rosa ser dela mesma

a outra rosa


sábado, 9 de novembro de 2019

               patitas

se pudesse arrancar
esta dor

dar-lhe outro nome
uma janela de chuva
onde estivesses sempre

uma palavra
que fosses tu

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

ouvi dizer
que todos os poemas
são mentira

uma imitação dos homens
que passam
na grande dor que há
em suas casas

mas as palavras e os nomes
insectos e terra

os desenhos nas janelas
mostram-me

a grande imitação
que a vida é

domingo, 3 de novembro de 2019


nada se parece mais
com a alegria

uma criança move
os seus dedos devagar
e apesar da tarde

é um pássaro
um risco

um desenho
no coração