poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 6 de setembro de 2026

 pode um poeta despedir-se dos demais, sem que estes o percebam? pode a existência de um poeta confundir-se com a de alguém que atravessa um rio, uma ponte ou a rua de uma cidade? ou, permitam-me, ainda, a pergunta: pode um poeta tornar-se a tal ponto os seus poemas, que a um dado momento, o que dele resta é uma sombra, um vulto? ou talvez perguntar se pode a existência de um poeta ser aquela coisa silenciosa que ninguém pôde ouvir, ver ou tocar. o grão de uma espiga de milho em voo planado

 

há quem estranhe

os meus poemas

não terem literatura

 

também eu estranho

chamar-se vida

a tanto engano

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 

conheço uma aldeia

onde todos somos imagens

 

até os gatos

 

atravessamos as casas

e o frio muito abraçados

e só conhecemos

um rio

 

hoje vim passear

com o pai

 

a mãe espreita

da janela

 

tu lês este poema

e não sabes

 

tu não sabes

que morri há muito

 

o meu nome está

à esquerda

quando

entras

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 

428

 

vi passar um homem

em chamas

 

no chão um corpo

sem cabeça

 

prédios e gemidos

lado a lado

 

o sol escondeu-se

numa caixa

de pó

 

então é isto

que chamam

guerra

 

podíamos talvez

chamar-lhe

gospel

 

e cantávamos

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

se eu chorar contigo

promete

 

que voltarás

para mostrar-me

as tuas mãos

 

ou talvez queiras

dar-me o teu

coração

 

nesse caso

 

voltarei eu para

estar contigo

 

os dois

lado a lado

à espera do verão

 

aqueles que seguem

outras estradas

 

não são diferentes

de ti

 

são apenas mãos

que se afastam

 

também

elas procuram

os desertos