poesia, Carlos Lopes Pires

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 

fazia sol

mas não se via

 

o que havia

era uma chuva

copiosa e fresca

 

que caía

dos alpendres

 

por vezes

alguém passava

distraída e lenta

 

e

acontecia

 

vem abelha

 

pousar nesta mão

neste dedo

 

nesta casa velha

 

muito longe daqui

ou talvez não

 

é que há

um segredo

domingo, 16 de agosto de 2026

 

a cultura não

serve para nada

 

o amor sim

 

a arte e a literatura

são uma perda de

tempo

 

o amor não

 

esvazia-te

 

ergue o mais que

possas as tuas mãos

abertas

 

e desenha um

poema

 

caso Deus exista

 

fala-lhe de mim

 

que embora eu não

creia na sua existência

 

lhe dou outros nomes

 

sol chuva rosa

abelha água

 

caminho do bem

 

silêncio

sábado, 15 de agosto de 2026

 

como plantares uma árvore

sem borda d’água

 

e sem ajuda de metáforas

 

plantas primeiro

um céu com nuvens

 

providencia que chova

um rio ou dois

 

e depois junta-lhe

um azul com muito

sol

 

pássaros

muitos pássaros

 

bichos insectos

e terra sem chão

pois as árvores gostam

de voar

 

de seguida aguarda

 

a árvore começa

a crescer por cima

 

dá-me a tua mão

 

e leva-me a ver

o sol

 

jura

que tudo

quanto amas em mim

 

é o pássaro

que se foi

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

senhor

 

ao contrário de

outros eu não te

venero

 

nem falo em

teu nome ou em

promessas

 

nunca conquistei em

teu nome ou matei

 

nem te culpo pela

tua inexistência

 

aceito as

tuas imperfeições e

ausência e jamais te

comprometo com os

meus erros

 

acima de tudo

há muito que te libertei dos

meus compromissos

 

tu és a minha falta