poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

senhor

 

ao contrário de

outros eu não te

venero

 

nem falo em

teu nome ou em

promessas

 

nunca conquistei em

teu nome ou matei

 

nem te culpo pela

tua inexistência

 

aceito as

tuas imperfeições e

ausência e jamais te

comprometo com os

meus erros

 

acima de tudo

há muito que te libertei dos

meus compromissos

 

tu és a minha falta

 

as metáforas são coisas

sobre outras coisas

 

nos meus poemas

não há coisas encavalitadas

 

se digo escaravelhos

é escaravelhos

 

se digo sol

se digo muros

 

a nada mais me refiro

 

os anjos dos meus poemas

não são pássaros

nem vaga-lumes

 

ou aparições

de almas penadas

 

não são

candeeiros da cidade

 

são apenas anjos

 

igualzinhos a ti

e a mim

 

só que voam

 

um anjo

apareceu-me e

disse

 

aqui estou

para que me saibas

 

quem te enviou

perguntei

 

foi a rã

 

e então

sangrei de mãos

pés

 

e coração

domingo, 9 de agosto de 2026

 

um gato

foi crucificado esta manhã

 

morreu em nós

sem dizer

 

porque

me fizeste isto

 

ninguém o viu ressuscitar

nem caminhar nas ruas em busca

de seguidores

 

conheceu muitos homens

mas a nenhum perguntou

 

por que me segues

clavius

 

bastou seguir a si mesmo

nas árvores nos muros

ou nas casas onde

viveu

 

nunca o viram rezar

nem odiar em nome

de ideias tontas

 

a sua vida foi o que foi

 

e em tudo o que errou

foi certeiro

sábado, 8 de agosto de 2026

 

um brilho

veio através da água

 

como se fosse

um barco ou uma sombra

 

e falou aos peixes

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

os pobres

foram ajudados por

robin hood

 

os injustiçados tiveram

batman e outros justiceiros

como mandrake

 

ou tarzan que defendeu

igualmente outros animais

 

os fracos e os indefesos

foram protegidos pelo fantasma

e pelo homem aranha

 

cisco kid

que era um romântico

vive agora num lar de idosos

 

já jesus cristo

fez-se crucificar e até hoje

não salvou ninguém

 

olá

terra do nunca

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

 

é sempre tempo para dizer

adeus

 

fechar a porta

que um dia se abriu

 

fechá-la várias vezes

indo até ao fim de ruas

que não eram nossas

 

pois em cada rua encontramos

sempre a mesma porta

e os sinais do tanto

que nos custa

ou doeu

 

o imenso o pouco

o bastante ou quase nada

que alguém nos deu

 

a palavra fechada

que um dia se abrirá

em cada um

de nós

 

há quem diga

que a vida é isto

 

eu digo que a vida

é muito mais

 

outros dizem

que haverá outra vida

 

eu digo

que todas

as vidas são daqui

 

e aqui

 

é muito mais

do que sabemos ver