poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 

13

quando tinha a idade

dos anjos

 

tinha quase tudo

o necessário

 

e tinha uma parede

de cal branca

que era o céu visto

de cima

 

dá-me as tuas mãos

 

dizia uma voz

aberta na parede

 

e dei-lhe a mão

dei-lhe a mão

 

oh não me faças chorar

pois dei-lhe a mão

e o coração

 

um grilo

uma formiga

uma sardanisca

 

e tinham tantos nomes

 

os anjos

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 

fazia sol

mas não se via

 

o que havia

era uma chuva

copiosa e fresca

 

que caía

dos alpendres

 

por vezes

alguém passava

distraída e lenta

 

e

acontecia

 

vem abelha

 

pousar nesta mão

neste dedo

 

nesta casa velha

 

muito longe daqui

ou talvez não

 

é que há

um segredo

domingo, 16 de agosto de 2026

 

a cultura não

serve para nada

 

o amor sim

 

a arte e a literatura

são uma perda de

tempo

 

o amor não

 

esvazia-te

 

ergue o mais que

possas as tuas mãos

abertas

 

e desenha um

poema

 

caso Deus exista

 

fala-lhe de mim

 

que embora eu não

creia na sua existência

 

lhe dou outros nomes

 

sol chuva rosa

abelha água

 

caminho do bem

 

silêncio

sábado, 15 de agosto de 2026

 

como plantares uma árvore

sem borda d’água

 

e sem ajuda de metáforas

 

plantas primeiro

um céu com nuvens

 

providencia que chova

um rio ou dois

 

e depois junta-lhe

um azul com muito

sol

 

pássaros

muitos pássaros

 

bichos insectos

e terra sem chão

pois as árvores gostam

de voar

 

de seguida aguarda

 

a árvore começa

a crescer por cima

 

dá-me a tua mão

 

e leva-me a ver

o sol

 

jura

que tudo

quanto amas em mim

 

é o pássaro

que se foi