poesia, Carlos Lopes Pires

sábado, 19 de setembro de 2026

 

desde há dias que

vivo num mundo de

papel

 

hoje vou falar do

pássaro

 

voa pássaro de

papel

 

leva sol onde

existam corações

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

imagina alguém que sobre o seu rosto coloca camadas de efeitos e produtos a que chamam cosmética. isso é o mundo em que vivemos e é, igualmente, o que define a poesia literária. essa cosmética pretende propor cambiantes e aparências e assim representar o mundo, a partir de uma espécie de ilusionismo. quando os poemas não são literários, o que fazem é retirar essas camadas, para que o mundo possa falar. um poema escuta o mundo. não o representa. é também por isto que à poesia com literatura falta ética do bem. o poema é um acontecimento do mundo dentro da linguagem

 

7

 

no ponto mais alto

 

na pobreza

do gato

 

naquela eira

onde fui esperar

o mundo

 

incendeio-me

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 

5

 

se encontrares

um vaga-lume

 

lembra-te

que ceguei

 

ampara-me

 

pai nosso

e dos insectos

 

que nos dás

um dia de cada vez

 

que pode ser

o último

 

na ladainha

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

44

 

quem quiser fique

com a

taça

 

e com ela faça uma

casa um atalho ou

um baraço

 

pois através dela

eu vejo

 

os caídos os

derrotados os que

ficaram a meio

 

aqueles que

durante a subida ficaram

na paisagem

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

 

266

 

paul celan cavou no chão

 

nem flores nem pás

saros

 

apenas mortos

 

num quarto muito

escuro rezou

a um deus com os

nomes desses mortos

 

depois abriu

uma janela no mundo

 

e voou

para a terra de

ninguém

 

olá

terra de ninguém