poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

 

194                                              /três poemas sobre o meu auto-retrato/

 

hoje fiz o

meu boneco

 

com uma rolha de

cortiça e dois

fósforos

 

para cabeça usei

uma azeitona

 

o coração não

se vê

 

anda

encontra

me

 

195

 

quase no final

do poema perguntas

 

onde estão

ouvidos nariz olhos

boca

 

e eu digo-te

esta azeitona é

lisa

 

então tu ris

te muito e eu

mergulho na piscina

 

196

 

comecei num

dia de verão

 

atravessei os campos

e brinquei nas eiras

 

da chuva fiz o abrigo

e a casa

 

mas em tudo

fui deserto

 

passaram-se

milhões de anos

 

e ainda não encontrei

a tua mão

 

um homem inclinou

se no chão

 

separou-se de todos

os nomes que lhe

deram

 

e enterrou-os junto

a um charco de

hortelã e malva

 

depois

selou nos lábios a

sua língua

 

e calou

se

 

para seres poeta

 

usa as palavras

como se falasses pássaro

 

vive entre os homens

como se fosses

um deles

 

e nunca eles saibam

que só vieste vê-los

 

dá nomes

à tua solidão

 

mas nenhum

que não seja teu

 

depois cresce

para dentro de ti

 

até que no mundo

já não existam sinais

 

da tua ausência

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 

todo o amor é belo

quando chega

 

e não bate à porta

não acena

 

nem traz flores

 

depois é que

aprendemos

a dar-lhe

tudo

 

13

quando tinha a idade

dos anjos

 

tinha quase tudo

o necessário

 

e tinha uma parede

de cal branca

que era o céu visto

de cima

 

dá-me as tuas mãos

 

dizia uma voz

aberta na parede

 

e dei-lhe a mão

dei-lhe a mão

 

oh não me faças chorar

pois dei-lhe a mão

e o coração

 

um grilo

uma formiga

uma sardanisca

 

e tinham tantos nomes

 

os anjos

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 

fazia sol

mas não se via

 

o que havia

era uma chuva

copiosa e fresca

 

que caía

dos alpendres

 

por vezes

alguém passava

distraída e lenta

 

e

acontecia

 

vem abelha

 

pousar nesta mão

neste dedo

 

nesta casa velha

 

muito longe daqui

ou talvez não

 

é que há

um segredo