poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 13 de setembro de 2026

perguntaram-me o que é "silêncio". silêncio é a presença anterior e posterior ao tempo, dentro e fora do espaço, que não começa nem termina, pois não tem causa, nem é causador. e a presença fala. a presença somos nós a falar e a pensar. a presença move-se: é o pássaro. a presença manifesta-se: é a luz. a presença não ouve, não deseja: somos nós. o silêncio não é aquilo que permanece quando tudo se cala. é aquilo que permanece porque tudo, inclusive o que fala, lhe pertence.


silêncio é a presença sem intenção

 

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chego sempre tarde

aos lugares onde

não estás

 

olá

pássaro da manhã

sábado, 12 de setembro de 2026

 

sobrevivi

a umas quantas

coisas

 

mas não a ti

 

não cheguei

fui ou venci

 

antes da guerra

começar

 

já eu era

o vencido

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 

encontrei um pouco

de amor no chão

 

e pensei que fosse

o sol

 

toquei-lhe

muito ao de leve

 

era uma flor

era um gesto

 

e era

a tua mão

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 

toquei o teu rosto

em minhas mãos

 

toquei

o vaga-lume

 

toquei uma estrela

caída no chão

 

toquei a ferida

que tinhas

nas mãos

 

passaram-se

muitos

anos

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

o dia

em que te foste

 

foi também o dia

em que eu

me fui

 

para trás deixaste

uma fotografia

que tem

escrito

 

hei de amar-te

sempre

domingo, 6 de setembro de 2026

 pode um poeta despedir-se dos demais, sem que estes o percebam? pode a existência de um poeta confundir-se com a de alguém que atravessa um rio, uma ponte ou a rua de uma cidade? ou, permitam-me, ainda, a pergunta: pode um poeta tornar-se a tal ponto os seus poemas, que a um dado momento, o que dele resta é uma sombra, um vulto? ou talvez perguntar se pode a existência de um poeta ser aquela coisa silenciosa que ninguém pôde ouvir, ver ou tocar. o grão de uma espiga de milho em voo planado