a cultura não
serve para nada
o amor sim
a arte e a literatura
são uma perda de
tempo
o amor não
esvazia-te
ergue o mais que
possas as tuas mãos
abertas
e desenha um
poema
não posso pedir-te que venhas comigo. nem posso pedir-te que vejas o mesmo que eu vejo. cada qual transporta a si mesmo. também não posso pedir-te que saibas do que eu sei e que todos os dias me acontece desde há muito. repara: estou cego e um cego não pode pedir aos outros que vejam o que ele mesmo não sabe que vê.
como plantares uma árvore
sem borda d’água
e sem ajuda de metáforas
plantas
primeiro
um céu com
nuvens
providencia que
chova
um rio ou dois
e depois
junta-lhe
um azul com
muito
sol
pássaros
muitos pássaros
bichos insectos
e terra sem
chão
pois as árvores
gostam
de voar
de seguida
aguarda
a árvore começa
a crescer por
cima
senhor
ao contrário de
outros eu não
te
venero
nem falo em
teu nome ou em
promessas
nunca
conquistei em
teu nome ou
matei
nem te culpo
pela
tua
inexistência
aceito as
tuas
imperfeições e
ausência e
jamais te
comprometo com
os
meus erros
acima de tudo
há muito que te
libertei dos
meus
compromissos
tu és a minha falta
as
metáforas são coisas
sobre
outras coisas
nos
meus poemas
não
há coisas encavalitadas
se
digo escaravelhos
é
escaravelhos
se
digo sol
se
digo muros
a
nada mais me refiro
os
anjos dos meus poemas
não
são pássaros
nem
vaga-lumes
ou
aparições
de
almas penadas
não
são
candeeiros
da cidade
são
apenas anjos
igualzinhos
a ti
e
a mim
só
que voam