estive
em lisboa
lisboa despovoou se
desde há muito
que há apenas sombras
ruas cafés avenidas
e que às vezes
olham o rio que passa lá
no fundo
e julgam que talvez exista
ainda um outro
mundo
não posso pedir-te que venhas comigo. nem posso pedir-te que vejas o mesmo que eu vejo. cada qual transporta a si mesmo. também não posso pedir-te que saibas do que eu sei e que todos os dias me acontece desde há muito. repara: estou cego e um cego não pode pedir aos outros que vejam o que ele mesmo não sabe que vê.
194 /três poemas sobre o meu auto-retrato/
hoje fiz o
meu boneco
com uma rolha de
cortiça e dois
fósforos
para cabeça usei
uma azeitona
o coração não
se vê
anda
encontra
me
195
quase no final
do poema perguntas
onde estão
ouvidos nariz olhos
boca
e eu digo-te
esta azeitona é
lisa
então tu ris
te muito e eu
mergulho na piscina
196
comecei num
dia de verão
atravessei os campos
e brinquei nas eiras
da chuva fiz o abrigo
e a casa
mas em tudo
fui deserto
passaram-se
milhões de anos
e ainda não encontrei
a tua mão
13
quando tinha a idade
dos anjos
tinha quase tudo
o necessário
e tinha uma parede
de cal branca
que era o céu visto
de cima
dá-me as tuas mãos
dizia uma voz
aberta na parede
e dei-lhe a mão
dei-lhe a mão
oh não me faças chorar
pois dei-lhe a mão
e o coração
um grilo
uma formiga
uma sardanisca
e tinham tantos nomes
os anjos