poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 9 de agosto de 2026

 

um gato

foi crucificado esta manhã

 

morreu em nós

sem dizer

 

porque

me fizeste isto

 

ninguém o viu ressuscitar

nem caminhar nas ruas em busca

de seguidores

 

conheceu muitos homens

mas a nenhum perguntou

 

por que me segues

clavius

 

bastou seguir a si mesmo

nas árvores nos muros

ou nas casas onde

viveu

 

nunca o viram rezar

nem odiar em nome

de ideias tontas

 

a sua vida foi o que foi

 

e em tudo o que errou

foi certeiro

sábado, 8 de agosto de 2026

 

um brilho

veio através da água

 

como se fosse

um barco ou uma sombra

 

e falou aos peixes

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

os pobres

foram ajudados por

robin hood

 

os injustiçados tiveram

batman e outros justiceiros

como mandrake

 

ou tarzan que defendeu

igualmente outros animais

 

os fracos e os indefesos

foram protegidos pelo fantasma

e pelo homem aranha

 

cisco kid

que era um romântico

vive agora num lar de idosos

 

já jesus cristo

fez-se crucificar e até hoje

não salvou ninguém

 

olá

terra do nunca

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

 

é sempre tempo para dizer

adeus

 

fechar a porta

que um dia se abriu

 

fechá-la várias vezes

indo até ao fim de ruas

que não eram nossas

 

pois em cada rua encontramos

sempre a mesma porta

e os sinais do tanto

que nos custa

ou doeu

 

o imenso o pouco

o bastante ou quase nada

que alguém nos deu

 

a palavra fechada

que um dia se abrirá

em cada um

de nós

 

há quem diga

que a vida é isto

 

eu digo que a vida

é muito mais

 

outros dizem

que haverá outra vida

 

eu digo

que todas

as vidas são daqui

 

e aqui

 

é muito mais

do que sabemos ver

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

caminhei a noite toda

para te ver

 

e de cada estrada fiz

um deserto

 

de cada casa um

destino

 

de cada desconhecido

um irmão

 

de cada parte de mim

um lugar

 

e de cada dia

uma vida inteira

 

esta noite

fui visitado por um anjo

 

e ele disse-me

 

cala-te

e vem comigo

ao grande sítio das coisas

que não há

 

das coisas que cantam

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

chegas aqui

e dizes

 

não te conheço

 

é assim que a vida começa

 

uma casa uma sombra

ou era uma vez um rio

 

só depois o corpo

nomeia tudo o que

não conhece

 

o som das videiras

o porquê das coisas

um abraço

um beijo

 

um caminho que fazes

e que talvez seja

o teu regresso

 

a mão escondida

é a tua profecia