poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 

encontrei um pouco

de amor no chão

 

e pensei que fosse

o sol

 

toquei-lhe

muito ao de leve

 

era uma flor

era um gesto

 

e era

a tua mão

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 

toquei o teu rosto

em minhas mãos

 

toquei

o vaga-lume

 

toquei uma estrela

caída no chão

 

toquei a ferida

que tinhas

nas mãos

 

passaram-se

muitos

anos

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

o dia

em que te foste

 

foi também o dia

em que eu

me fui

 

para trás deixaste

uma fotografia

que tem

escrito

 

hei de amar-te

sempre

domingo, 6 de setembro de 2026

 pode um poeta despedir-se dos demais, sem que estes o percebam? pode a existência de um poeta confundir-se com a de alguém que atravessa um rio, uma ponte ou a rua de uma cidade? ou, permitam-me, ainda, a pergunta: pode um poeta tornar-se a tal ponto os seus poemas, que a um dado momento, o que dele resta é uma sombra, um vulto? ou talvez perguntar se pode a existência de um poeta ser aquela coisa silenciosa que ninguém pôde ouvir, ver ou tocar. o grão de uma espiga de milho em voo planado

 

há quem estranhe

os meus poemas

não terem literatura

 

também eu estranho

chamar-se vida

a tanto engano

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 

conheço uma aldeia

onde todos somos imagens

 

até os gatos

 

atravessamos as casas

e o frio muito abraçados

e só conhecemos

um rio

 

hoje vim passear

com o pai

 

a mãe espreita

da janela

 

tu lês este poema

e não sabes

 

tu não sabes

que morri há muito

 

o meu nome está

à esquerda

quando

entras

quinta-feira, 3 de setembro de 2026