pai nosso
e dos insectos
que nos dás
um dia de cada vez
que pode ser
o último
na ladainha
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
perguntaram-me o que é "silêncio". silêncio é a presença anterior e posterior ao tempo, dentro e fora do espaço, que não começa nem termina, pois não tem causa, nem é causador. e a presença fala. a presença somos nós a falar e a pensar. a presença move-se: é o pássaro. a presença manifesta-se: é a luz. a presença não ouve, não deseja: somos nós. o silêncio não é aquilo que permanece quando tudo se cala. é aquilo que permanece porque tudo, inclusive o que fala, lhe pertence.