poesia, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, 16 de junho de 2021

longe daqui

há uma guerra

de que ainda não sei o nome

 

passa-se num país

sem laranjas

 

é onde não há crianças

e chamam pássaros

às suas sombras

 

não há mães nem pais

 

foi por veredas sem fim

que se foram

e já não os deixam voltar

 

e para onde foram as flores

 

em seu lugar agora

é onde crescem trincheiras

terça-feira, 15 de junho de 2021

                               1.

 

um dia perguntaram ao poeta

como pode distinguir-se

um poema duma prosa

 

é fácil

disse ele

 

só nos poemas chove

 

2.

 

alguns não ficaram satisfeitos

e insistiram

 

então ele explicou

 

se é poema chove

 

se é prosa

poderá ter aguaceiros

segunda-feira, 14 de junho de 2021

como não havia luz

 

fui falar

ao vaga-lume

 

imagem de Deus

seu semelhante

 

e pedi-lhe

 

um lugar para ti

no mundo

quando te olhas no espelho

nunca é a ti que vês

 

e se tocas o teu rosto

não é a mesma mão

no mesmo rosto

 

moves-te

em caminhos e lugares

e por todos vais ficando

 

na grande solidão

do mundo

domingo, 13 de junho de 2021

abri uma ferida

e dei-lhe o teu nome

 

depois gravei-o

dentro de uma laranja

 

para que

nunca possas

estar longe de mim

segunda-feira, 7 de junho de 2021

no tempo em que tinha

um gato

 

desconhecia haver uma dor

com esse nome

 

porque o nome

não era o que se movia fora

 

mas o que havia

dentro

quinta-feira, 3 de junho de 2021

todos chegamos

de algum lado

 

e fazemos perguntas

aos que estão

 

e fazemos do que somos

o outro lado que já se foi

 

eu sei

às vezes juntamo-nos

lá fora

uns e outros

 

para que nunca

se faça tarde no coração