poesia, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, 7 de julho de 2021

aquele que é meu irmão

 

e de longe vem estar

na minha existência

 

esse de várias cores

homens ou mulheres

ou tanto faz

 

que regressam de noite

ou em dias frios

mas sempre com o sol

às minhas mãos

 

diversos eles são

aos milhões

 

bem-vindos

ao meu coração

terça-feira, 6 de julho de 2021

um dia

dir-te-ei a verdade

sobre a água

 

de como é estreito

o lugar onde vivo

 

de como são as noites

que saio à rua

 

e não

te encontro

sábado, 3 de julho de 2021

encostei

o meu coração ao teu

e pensei que era um só

 

e desde então há muito

que vivo no teu coração

 

ou talvez sejas tu

 

ignorantes os dois                 

tão cegos portanto

 

indo e vindo de toda a parte

que onde um vai

o outro está

 

este tão grande desconhecimento

da impossibilidade

 

até que a morte

esclareça o mistério

e os dias

são como as aves

 

transparentes e leves

não fazem traços

nos céus

 

nem deixam marcas

por onde passam

 

e se as vemos

 

é sempre a caminho

da ausência

sexta-feira, 2 de julho de 2021

senhor

 

tentei ser mais leve

que no voo

a ave distante

 

e demasiado longe

eu sei agora

 

que nada vence o peso

da tua ausência

 

tão excessivo

é este azul

 

no meu coração

encontra alguém

que te ame

 

que faça do teu nome

a única pátria desconhecida

o lugar nunca encontrado

 

e assim queira em ti viver

para que vivas tu depois

e sempre

 

alguém que por ti respire

 

que possa subir na tua cruz

e nela morrer

o teu nome

 

porque sabe que um dia

há de todo o ar

ser pequeno

 

junto às árvores

 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

tu senhor

 

criaste as flores

e as abelhas

 

engrandeceste

as coisas simples

e os sinais

 

deste-nos o que era teu

e deixaste

que usássemos a luz

e tudo o que era abundante

 

e depois ficámos sós

uns e outros

desmerecendo a água

e as nossas próprias mãos

 

e um de nós

que eras talvez tu

 

elevámos em humilhação

e morte