poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 31 de março de 2026

 

uma espécie de verão

chegou com a primavera

 

o sol ainda não

se encheu de crianças

nem há vozes

para os lados da areia

 

as flores viajaram

de muito longe

para aqui

chegar

 

flutuam nos barcos

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

 queres

que eu cante


e eu canto


é assim desde há muito

nas casas nas terras

e nas aves


levanto-me cedo


e se quiseres

que eu cante


eu canto


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

 

160

 

jesus não foi

crucificado por romanos

judeus ou fariseus

 

foram os amigos

 

antes e depois

julgaram-no pelo que

não fez e crucificaram-no

 

pelo que não tinha

 

e quiseram

ressuscitá-lo

não para sua salvação

 

mas para a sua

própria fuga

terça-feira, 3 de setembro de 2024

 

gosto de sol

e gosto de chuva

 

gosto do sabor húmido

dos eucaliptos quando chove

 

gosto do sol

inclinado nas paredes

 

gosto daquelas casas

com dois gatos

e talvez um cão

dormido no alpendre

 

e gosto de encontrar

cabides atrás

das portas

 

gosto de ver

a roupa pendurada

domingo, 25 de agosto de 2024

 

os meus poemas

 

que não têm

literatura ou arte

 

são de tudo isso

estranhamentos

 

imagino o mesmo do

escaravelho

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

 

creio nas baratas

e no ar que respiram

 

não creio na literatura

 

creio no silêncio

do que não entendo

e creio nas baratas

 

que sabem

os seus atalhos

 

mas não creio

na literatura

 

creio nos anjos

que ainda ninguém viu

e creio nas baratas

 

que não têm segredos

 

e ainda assim

não creio na literatura

domingo, 11 de agosto de 2024

 

o que não vês

o que não ouves

o que não tocas nem percebes

é realmente o que está

 

talvez queiras compreender

e então escreves poemas

que são a tua vida

 

não para a tornar um engano

 

mas para dar um sentimento

ao que não podes alcançar

 

na tua própria existência

 

o universo não foi criado

de algo

que já houvesse

 

foi dele mesmo

como se fosse uma rosa

 

dela mesma

como se fosse chuva

 

nenhuma mão

que não fosse a tua

sábado, 10 de agosto de 2024

 

91

 

leve é o

voo do caminho

mais iluminado

 

iluminada é a

sombra que revela

 

por ambos

segue o pássaro

sexta-feira, 17 de maio de 2024

como não sei

o que é o amor

fui perguntar a um pássaro

 

e perguntei-lhe porque voa

e que espécie de ar

o sustenta

o quê

 

porque realmente

não sei o que é o amor

não sei

 

e o pássaro

que possui o prodígio

dos impossíveis

 

pousou

no meu coração

terça-feira, 7 de maio de 2024

e se agora me desses

tudo o que me falta

no coração

 

as mãos abertas

em tudo o que recusei

 

e por isso

nada me faltou

 

ninguém sobe

à sua cruz

em vão

domingo, 5 de maio de 2024

as minhas filhas

 

mais que metade

de mim

 

mais que a parte

inteira

 

verdade

que a rosa deixou

sem palavras

 

amor

que nenhuma morte

pode vencer

sábado, 4 de maio de 2024

já me disseram

que não

deveria haver paredes

nos meus poemas

 

que as paredes

separam as pessoas

 

não

não

 

as paredes dos meus poemas

são de branca cal

pintadas

 

revela a tua voz

ó rouxinol

 

e cantarei contigo

sexta-feira, 3 de maio de 2024

 na minha língua

crescem os destroços

deste mundo

 

e sou assim

como tu

 

a quem só as rosas

interessam

 

demiti-me

de todos os despojos


quinta-feira, 2 de maio de 2024

abri a porta

de casa

e disse

 

canta para mim

mundo

 

e vieram as flores

e os melros

 

e então não sei

 

escuta

que desconheço

quase tudo sobre flores

e saudei a passagem

dos melros

 

saudei e disse

 

canta comigo

primavera

quarta-feira, 1 de maio de 2024

e então

o anjo disse

 

o ódio tem muitos

nomes

 

mulher branco preto

pobre preguiçoso

estrangeiro

 

o caminho do bem

é que tem um só

terça-feira, 30 de abril de 2024

pedes-me

que seja forte

 

que aguente as mãos

neste lado da fotografia

 

que há um mundo

onde já não estás

 

que a estrada é cega

 

e eu digo-te

que sou forte

quando te amo

 

e que hei de

amar-te sempre

segunda-feira, 29 de abril de 2024

transforma-se a vida

na coisa amada

 

a janela

a quem damos a mãos

 

o amor que nenhum

nome pode ter

 

os filhos

os adorados filhos

 

esta mão

que se abre

nas suas mãos

 

o regresso da vida

à coisa amada

sábado, 27 de abril de 2024

 

                                             suite nº 3 em d maior de s. bach

 

vem abelha

 

pousar nesta mão

neste dedo

 

nesta casa velha

 

muito longe daqui

ou talvez não

 

é que há

um segredo