poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 11 de julho de 2021

senhor

 

eu sou digno

de tudo o que de bom

me aconteceu

 

e mereço

em medida igual

o que de mau

em ambas as mãos

recebi

 

e se a árvore não tinha frutos

não me julgues

 

se a distância era longa

tu foste a parte ausente

 

se a minha voz

em lugar algum te alcança

 

não me escrevas tu

mais cartas

sem endereço

         Vai. E por onde quer que vás

leva contigo a canção.

Afaga-a dentro de ti

porque ela é tua

e alumia o teu caminho

mesmo quando a noite se torna escura

e tu perdido.

 

Guarda-a no teu peito como uma flor,

mas nunca a queiras só para ti: reparte-a

para que os teus amigos se tornem

mais belos e mais perfeitos:

 

que a vida é única

e por dentro há uma música qualquer

que nos atrai.

disseram-lhe

que nunca os gatos falam

 

e então ele disse

que falam mais

que muitos homens

 

que não conhecem

dos gatos as dores

 

nem da chuva

o amor das pequenas

coisas

 

esses que dizem

 

e não sabem dos olhos

de uma criança

no seu gato

sábado, 10 de julho de 2021

experimenta acreditar

que isto é mais que outra coisa

 

e dá um nome

a tudo o que vale a pena

 

são muitas ainda que

às vezes te parecem poucas

 

podem elas ser do domínio

do que não está

ou pode acontecer

que não as vejas

 

outras és tu

que não queres

 

pois demasiadas vezes

escolhes aparências fáceis

sexta-feira, 9 de julho de 2021

               muita gente tem alguma coisa importante em sua vida. por ela cresce e por ela se transforma. podem ser os filhos, os netos, os amigos. há quem reze esperando um lugar feliz depois da morte. há pessoas que ambicionam coisas simples, como o sossego, uma noite de chuva com silêncio, ou a sombra de uma árvore. há também aquelas, bem as vejo, que assomam de uma janela, para tudo aquilo em que não tocam. há quem tenha um livro aberto numa página que nunca mais foi fechada. aí ficou, como se o livro, mais que palavras, seja uma outra coisa que não sabe, mas onde vê, mais que um pensamento ou um mar, mais que a vida ou o mundo, tudo aquilo em que a sua própria existência não cabe. são os poemas.

observei as árvores

e não te vi

 

olhei o telhado da minha casa

e não estavas

 

esperei que anoitecesse

e não voltaste

 

espreitei de noite pela janela

até onde o meu coração

poderia alcançar-te

 

e nada aconteceu

 

então sentei-me

 

no coração

quinta-feira, 8 de julho de 2021

não quero substituir-te

e por isso quero que me faltes sempre

 

não preciso da tua foto

ou de uma coisa qualquer redonda

que me recorde de ti

 

quero a tua falta

 

e quero partilhá-la com as árvores

e com as tardes de chuva

 

e quero que me faltes todas as noites

e não em algumas noites

 

não aceito esquecer-te

tal como não aceito substituir-te

 

caminho e hei de caminhar

como quem procura o impossível

através das coisas e das rosas

 

porque realmente do que preciso

é da tua falta

 

e se tiver de chorar

hei de chorar

 

e que se abra também

e repetidamente

uma ferida em tudo

o que não estás

 

e seja tão infinitamente grande

ao ponto de ser invisível

para todos quantos desconhecem

 

a tua ausência