poesia, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

 

160

 

jesus não foi

crucificado por romanos

judeus ou fariseus

 

foram os amigos

 

antes e depois

julgaram-no pelo que

não fez e crucificaram-no

 

pelo que não tinha

 

e quiseram

ressuscitá-lo

não para sua salvação

 

mas para a sua

própria fuga

terça-feira, 3 de setembro de 2024

 

gosto de sol

e gosto de chuva

 

gosto do sabor húmido

dos eucaliptos quando chove

 

gosto do sol

inclinado nas paredes

 

gosto daquelas casas

com dois gatos

e talvez um cão

dormido no alpendre

 

e gosto de encontrar

cabides atrás

das portas

 

gosto de ver

a roupa pendurada

domingo, 25 de agosto de 2024

 

os meus poemas

 

que não têm

literatura ou arte

 

são de tudo isso

estranhamentos

 

imagino o mesmo do

escaravelho

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

 

creio nas baratas

e no ar que respiram

 

não creio na literatura

 

creio no silêncio

do que não entendo

e creio nas baratas

 

que sabem

os seus atalhos

 

mas não creio

na literatura

 

creio nos anjos

que ainda ninguém viu

e creio nas baratas

 

que não têm segredos

 

e ainda assim

não creio na literatura

domingo, 11 de agosto de 2024

 

o que não vês

o que não ouves

o que não tocas nem percebes

é realmente o que está

 

talvez queiras compreender

e então escreves poemas

que são a tua vida

 

não para a tornar um engano

 

mas para dar um sentimento

ao que não podes alcançar

 

na tua própria existência

 

o universo não foi criado

de algo

que já houvesse

 

foi dele mesmo

como se fosse uma rosa

 

dela mesma

como se fosse chuva

 

nenhuma mão

que não fosse a tua

sábado, 10 de agosto de 2024

 

91

 

leve é o

voo do caminho

mais iluminado

 

iluminada é a

sombra que revela

 

por ambos

segue o pássaro

sexta-feira, 17 de maio de 2024

como não sei

o que é o amor

fui perguntar a um pássaro

 

e perguntei-lhe porque voa

e que espécie de ar

o sustenta

o quê

 

porque realmente

não sei o que é o amor

não sei

 

e o pássaro

que possui o prodígio

dos impossíveis

 

pousou

no meu coração

terça-feira, 7 de maio de 2024

e se agora me desses

tudo o que me falta

no coração

 

as mãos abertas

em tudo o que recusei

 

e por isso

nada me faltou

 

ninguém sobe

à sua cruz

em vão

domingo, 5 de maio de 2024

as minhas filhas

 

mais que metade

de mim

 

mais que a parte

inteira

 

verdade

que a rosa deixou

sem palavras

 

amor

que nenhuma morte

pode vencer

sábado, 4 de maio de 2024

já me disseram

que não

deveria haver paredes

nos meus poemas

 

que as paredes

separam as pessoas

 

não

não

 

as paredes dos meus poemas

são de branca cal

pintadas

 

revela a tua voz

ó rouxinol

 

e cantarei contigo

sexta-feira, 3 de maio de 2024

 na minha língua

crescem os destroços

deste mundo

 

e sou assim

como tu

 

a quem só as rosas

interessam

 

demiti-me

de todos os despojos


quinta-feira, 2 de maio de 2024

abri a porta

de casa

e disse

 

canta para mim

mundo

 

e vieram as flores

e os melros

 

e então não sei

 

escuta

que desconheço

quase tudo sobre flores

e saudei a passagem

dos melros

 

saudei e disse

 

canta comigo

primavera

quarta-feira, 1 de maio de 2024

e então

o anjo disse

 

o ódio tem muitos

nomes

 

mulher branco preto

pobre preguiçoso

estrangeiro

 

o caminho do bem

é que tem um só

terça-feira, 30 de abril de 2024

pedes-me

que seja forte

 

que aguente as mãos

neste lado da fotografia

 

que há um mundo

onde já não estás

 

que a estrada é cega

 

e eu digo-te

que sou forte

quando te amo

 

e que hei de

amar-te sempre

segunda-feira, 29 de abril de 2024

transforma-se a vida

na coisa amada

 

a janela

a quem damos a mãos

 

o amor que nenhum

nome pode ter

 

os filhos

os adorados filhos

 

esta mão

que se abre

nas suas mãos

 

o regresso da vida

à coisa amada

sábado, 27 de abril de 2024

 

                                             suite nº 3 em d maior de s. bach

 

vem abelha

 

pousar nesta mão

neste dedo

 

nesta casa velha

 

muito longe daqui

ou talvez não

 

é que há

um segredo

amo-te

como se fosses

de um outro mundo

 

e és

 

porque tu

não trazes apenas

as sombras

 

tu trazes a luz

 

às vezes chove

mas o que é a chuva

senão um modo

de ser

 

a tua luz

 

e por isso sei

que há de haver

um outro mundo

 

ou talvez um lugar

de onde venhas

 

e onde esteja tudo

o que me falta

sexta-feira, 26 de abril de 2024

saúdo os amigos

e saúdo o tordo-eremita

 

comparo-os na beleza

do que cantam

 

comparo-os na leveza

do incomparável

quinta-feira, 25 de abril de 2024

e todavia

a esperança existe

 

vejo-a

enquanto espero

um brilho que sai

da água

 

e ascende

 

e então

sigo essa estrada

sei tanto

sobre liberdade

 

como sei

sobre a verdade

 

isto é

népia

 

mas não

te preocupes

eu e outros ignorantes

como eu

 

voamos de peixes

o coração

quarta-feira, 24 de abril de 2024

hoje encontrei

um peixe de voar

 

atravessou as nuvens

e a chuva

 

caminhou no chão

a fazer de formiga

e sombra ao sol

 

do seu coração

brotou um rio

e uma flor

sem nome

terça-feira, 23 de abril de 2024

            sê clandestino: segue a pista

 

 

seres clandestino não significa andares escondido ou destruíres o que está instituído. Seres clandestino significa seres autêntico. E é só porque ser autêntico é tão raro, que o mais das vezes provoca estranheza e leva a que se esteja por fora da realidade formal ou mundo instituído, o da normatividade, da banalidade.

Ser clandestino significa encontrares um desígnio pessoal, teu, de mais ninguém, que podes partilhar, é claro, mas sempre compreendendo que não podes impôr o que não te pertence. Portanto, ser autêntico é em relação a este desígnio pessoal, e que não se confunde com as risíveis manifestações panfletárias.

Ser clandestino custa. Em geral, terás de prescindir das atribuições possíveis de méritos, de reconhecimentos por parte de pessoas ou grupos que cultivam a normatividade. Podes até aceitá-los, mas sempre ciente, sabedor de que não deixas que te roubem o espírito clandestino, porque sabes que não passam de entretenimentos perante a tua viagem única. Aprende que ser clandestino não é um atributo deste mundo. É uma escolha ética que tu fazes em teu próprio nome. E na história da humanidade não estarás só: muitos outros, antes de ti, fizeram essa escolha. É longa a linhagem que não acaba em ti. Se quiseres, segue essa pista.

Ser clandestino chega a doer quando observas o triunfo dos medíocres. Pessoas sem talento, imaginação ou inteligência hão de passar-te à frente. Por que te espantas?: Elas estão por toda a parte. São a maioria. Mas escuta-te: tu nasceste sem princípio e podes construir a tua ausência. Não precisas de mais nada. Basta que te cales e busques em ti o espírito do gato: nunca desistas da autenticidade. O mundo que te deram é apenas uma versão da realidade. Há outras possíveis. Segue a pista.

Ser clandestino é seguires o caminho do bem. E que por onde quer que vás levas contigo uma mensagem cósmica. Não sigas religiões ou livros adjacentes: apenas querem roubar-te a alma. Não queiras seguir santos, mestres ou gurus: são todos imitações uns dos outros. E não sabem nada que tu já não saibas: o mundo é um mistério e a existência um prodígio. Não deixes que te encerrem no seu quarto escuro. Crucifica-te na tua cruz e salva-te da banalidade. Eleva-te ao lugar mais alto que possas imaginar e faz da tua vida uma existência generosa e afável. Segue a pista.

Talvez os teus amigos não te ouçam, talvez não compreendam. Ou talvez sejas tu que não te explicas ou não compreendes toda a grandiosidade que recebeste. Não importa: recorda que no cosmos nada está fora de ti. Que cada coisa ou partícula já um dia foram como tu. E tu simplesmente estás de regresso.

Clandestina-te. Segue a pista