poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 30 de outubro de 2022

um amigo disse-me

que num charco

é impossível haver barcos

 

mas eu

que sou filho da infância

digo que mais difícil

 

é haver paz

lá fora

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

um rouxinol

atravessa ferido

a espessura da tarde


passa pelas árvores

 

sangra no coração

das ervas e dos insectos

 

transporta uma ferida

no coração

 

inaugura na noite

dos seus olhos

uma canção


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

tem compaixão de nós

senhor

 

que somos animais aflitos

e sem regresso

 

e construímos erguemos

fazemos

 

mas por dentro somos

vazios e desertos

terça-feira, 11 de outubro de 2022

a minha casa

é de ver noites

 

por isso

tem uma estrela

lá no cimo

de onde se vê

a fábrica do longe

 

a minha casa

abre-se de dia

e vê-se através dela

o sol

 

olha

 

vê-se através dela

o sol que trazes

 

nas tuas mãos

há poetas que escrevem

para a literatura

 

eu escrevo para estar

contigo

 

para que mesmo depois

da minha ausência

 

fique uma dádiva

de abundância

senhor

 

estão a acabar-se as canções

e nada me dizes

sobre as rosas

 

já perdi avós pais

alguns tios e amigos

 

os meus filhos

em breve ficarão sós

 

e nada me dizes

sobre as rosas

sábado, 8 de outubro de 2022

hoje entreguei

o meu coração ao sol

e passeei na chuva

 

hoje cresci numa planta

até tornar-me água

e uma gota caí

até ser mar

 

hoje respirei uma estrela

até á noite

 

em mim

nada se desfaz