pergunto
se haverá alguém no
cosmos
se haverá alguém
que nos possa salvar
desta escuridão
tão grande
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
recordo que em
criança
às vezes desenhava
numa folha de papel muito branca
as várias cores de
Deus
desenhava quase
tudo
um caminho
uma casa com o
telhado inclinado
um sol
e uma montanha
ao fundo
um rio e
pessoas que passavam
de lado a olhar para mim
havia até um cão
ou talvez um gato
e ao terminar o desenho
todo
ficava sempre
nada
imagina alguém
que sobre o seu rosto coloca camadas de efeitos e produtos a que chamam
cosmética. isso é o mundo em que vivemos e é, igualmente, o que define a poesia
literária. essa cosmética pretende propor cambiantes e aparências e assim representar
o mundo, a partir de uma espécie de ilusionismo. quando os poemas não são
literários, o que fazem é retirar essas camadas, para que o mundo possa falar. um
poema escuta o mundo. não o representa. é também por isto que à poesia com
literatura falta ética do bem. o poema é um acontecimento do mundo dentro da
linguagem
perguntaram-me o que é "silêncio". silêncio é a presença anterior e posterior ao tempo, dentro e fora do espaço, que não começa nem termina, pois não tem causa, nem é causador. e a presença fala. a presença somos nós a falar e a pensar. a presença move-se: é o pássaro. a presença manifesta-se: é a luz. a presença não ouve, não deseja: somos nós. o silêncio não é aquilo que permanece quando tudo se cala. é aquilo que permanece porque tudo, inclusive o que fala, lhe pertence.
pode um poeta despedir-se dos demais, sem que estes o percebam? pode a existência de um poeta confundir-se com a de alguém que atravessa um rio, uma ponte ou a rua de uma cidade? ou, permitam-me, ainda, a pergunta: pode um poeta tornar-se a tal ponto os seus poemas, que a um dado momento, o que dele resta é uma sombra, um vulto? ou talvez perguntar se pode a existência de um poeta ser aquela coisa silenciosa que ninguém pôde ouvir, ver ou tocar. o grão de uma espiga de milho em voo planado