poesia, Carlos Lopes Pires

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

429

 

vivi junto a um charco

 

de noite

ouvia as rãs

quando as casas

se calavam

 

havia também uma voz

que vinha de muito longe

e mal se ouvia

 

às vezes

 

ainda a ouço

cantar

domingo, 30 de agosto de 2026

 

412

 

que te recordes de mim

quando abras as janelas

nos dias frios

 

e me dizias

oxalá não chova

 

oxalá

não venhas tarde

 

quieto

o coração

 

407

 

se um homem é isto

 

uma casa que viu

crescer as suas mãos

 

uma rua que era grande

e se tornou depois

pequena

 

e que em cada cidade

há sempre mais uma rua

que se parece às outras

 

e já velho soube

 

que nenhuma rua

acaba aqui

sábado, 29 de agosto de 2026

 

quando o anjo

chegou à cidade

 

ninguém o viu

 

é natural

dizes

tu

 

pois os anjos

não existem

 todos os dias são dia de aniversário do homicídio de Giordano Bruno pela igreja católica


faz hoje

exactamente

muitos anos

que giordano bruno

 

voa pássaro

 

que nenhum homem

te roube o ninho

 

os homens de palha

ainda governam

o mundo


 

401

 

o universo é consciência. a consciência é pensamento, sentimento e experiência de si. o universo fala, interpreta e cria. o universo é a palavra revelada. é o que um poema faz. do mesmo modo que o ar é matéria e espírito, também uma palavra, qualquer palavra, é matéria e espírito. um poema é como que um pequeno universo que pensa, sente e fala consigo mesmo (quer dizer, com o universo, o cosmos).

 

398

 

nomeio-te

por entre as telhas

e outras coisas partidas

 

nomeio-te dia de sol

 

em minha casa

até o silêncio

pesa

 

então carrego até à porta

estes dias de chuva

e deixo o sol

entrar

 

não limpes

os pés

 

sol

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 

396

 

chamaram pelo seu nome

mas já não havia

ninguém

 

do pó veio

e para o pó tornou

 

disseram

 

393

 

os poemas

criam lugares bonitos

num mundo

demasiado feio

para ser verdade

 

depois o poeta vai

por um caminho fora

desse mundo

 

é quando

se torna culpado

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

devíamos calar-nos mais

 

notar como cada coisa

é lenta na subida

e rápida quando cai

 

que nada se afasta

do seu fim

 

e cada fim

é uma pedra cega

 

381

 

conheço bem os velhos

 

há muito que me dou

com eles

 

e quando o tempo

se tornou excessivo

 

ouvi os seus passos

vindo através das árvores

 

e foram as minhas mãos

 

foram as minhas mãos

trocando flores com

as suas

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

377

 

no que respeita

a Deus

 

há quem diga

que nos meus

poemas

 

há uma no cravo

e outra na ferradura

 

e eu aceito

 

quando a porta

se abriu

 

havia ninguém

na rua

 

374

 

palhaço

que nos dás hoje

alguma coisa de comer

 

e que para todo o sempre

julgamos ser

os teus palhaços

preferidos

 

que por ti

e depois de ti

fizemos este circo

a que chamamos vida

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 

                                             para a lídia bacelar

a menina

do retrato

sorri

 

deitada na areia

contempla a

infância

 

algumas gaivotas

flutuam sobre

as ondas

 

ou pousaram

sobre a beira-mar

e não ficaram

no retrato

 

a menina

sorri-lhes

 

o que não se vê

 

é sempre o

que fica

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 

amigo

é aquele

que nunca se foi

 

passageiro

da tua dor quando

te apedrejam

 

aquele que nunca

o teu nome

gasta

 

a vida é um

empreendimento

 

a morte é o

produto acabado

do projecto que nunca

 

foi terminado

domingo, 23 de agosto de 2026

 

tanta gente

que se divulga e mostra

 

tanta gente

que apregoa o seu nome

 

senhor

crucifica-me na janela

de minha casa

 

prega os meus pés

na parede de cal branca

 

pendura-me pelos olhos

na árvore mais alta

que houver

 

cala-me

sábado, 22 de agosto de 2026

 

estive

em lisboa

 

lisboa despovoou se

 

desde há muito

que há apenas sombras

ruas cafés avenidas

 

e que às vezes

olham o rio que passa lá

no fundo

 

e julgam que talvez exista

ainda um outro

mundo

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

 

194                                              /três poemas sobre o meu auto-retrato/

 

hoje fiz o

meu boneco

 

com uma rolha de

cortiça e dois

fósforos

 

para cabeça usei

uma azeitona

 

o coração não

se vê

 

anda

encontra

me

 

195

 

quase no final

do poema perguntas

 

onde estão

ouvidos nariz olhos

boca

 

e eu digo-te

esta azeitona é

lisa

 

então tu ris

te muito e eu

mergulho na piscina

 

196

 

comecei num

dia de verão

 

atravessei os campos

e brinquei nas eiras

 

da chuva fiz o abrigo

e a casa

 

mas em tudo

fui deserto

 

passaram-se

milhões de anos

 

e ainda não encontrei

a tua mão

 

um homem inclinou

se no chão

 

separou-se de todos

os nomes que lhe

deram

 

e enterrou-os junto

a um charco de

hortelã e malva

 

depois

selou nos lábios a

sua língua

 

e calou

se

 

para seres poeta

 

usa as palavras

como se falasses pássaro

 

vive entre os homens

como se fosses

um deles

 

e nunca eles saibam

que só vieste vê-los

 

dá nomes

à tua solidão

 

mas nenhum

que não seja teu

 

depois cresce

para dentro de ti

 

até que no mundo

já não existam sinais

 

da tua ausência

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 

todo o amor é belo

quando chega

 

e não bate à porta

não acena

 

nem traz flores

 

depois é que

aprendemos

a dar-lhe

tudo

 

13

quando tinha a idade

dos anjos

 

tinha quase tudo

o necessário

 

e tinha uma parede

de cal branca

que era o céu visto

de cima

 

dá-me as tuas mãos

 

dizia uma voz

aberta na parede

 

e dei-lhe a mão

dei-lhe a mão

 

oh não me faças chorar

pois dei-lhe a mão

e o coração

 

um grilo

uma formiga

uma sardanisca

 

e tinham tantos nomes

 

os anjos

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 

fazia sol

mas não se via

 

o que havia

era uma chuva

copiosa e fresca

 

que caía

dos alpendres

 

por vezes

alguém passava

distraída e lenta

 

e

acontecia