crucifica-me contigo
jesus
frente a frente
num lugar muito alto
e com os olhos muito abertos
uma flor azul
na boca
azedas
no coração
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
as metáforas
são coisas sobre
outras coisas
nos meus poemas
não há coisas
encavalitadas
se digo escaravelhos
é escaravelhos
se digo sol
se digo muros
a nada mais me refiro
os anjos dos meus poemas
não são pássaros
nem vaga-lumes
ou aparições
de almas penadas
não são
candeeiros da cidade
são apenas anjos
igualzinhos a ti
e a mim
só que voam