a minha mãe tinha
muita vergonha de
eu ser ateu
e então rezava muito
e pedia perdão
por mim
para que mesmo
depois de
morrer
Deus pudesse ouvir
a sua voz
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
recordo que em
criança
às vezes desenhava
numa folha de papel muito branca
as várias cores de
Deus
desenhava quase
tudo
um caminho
uma casa com o
telhado inclinado
um sol
e uma montanha
ao fundo
um rio e
pessoas que passavam
de lado a olhar para mim
havia até um cão
ou talvez um gato
e ao terminar o desenho
todo
ficava sempre
nada