poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 9 de março de 2018

se nada tens para dizer-me

nem a mim nem às rosas
iguais que somos
em ausência e hora

e assim esta mão
te escreve
de solidão e chuva

quarta-feira, 7 de março de 2018

Faz hoje um ano que te conheci e soube o que é ter o coração cheiooooooooo! Um ano de aventuras...um ano repleto de emoções intensas e grandes descobertas! Faltam palavras para descrever o que representas na minha vida... todas me parecem poucas! És a minha estrelinha! PARABÉNS, LUCA!!!  (Escrito por Catarina ao seu filho Luca)

 
                                                                                        hoje um ano
                                                               
ou talvez muito mais
na mão que se abre
para o mundo

abundância e rosas
no coração
 
 


domingo, 4 de março de 2018

acabaram-se as andorinhas

acabaram-se as árvores
e o que nelas pendia

acabaram-se os calendários
e os dias que neles se escreviam

uma coisa havia
nas casas e nas janelas

nas páginas dos livros
e em quem os lia
                                  (para o Jorge)

sábado, 3 de março de 2018

agora que envelheci

dou comigo a pensar
que as andorinhas poderão
estar fora
todo o próximo verão

e ouço a chuva
como nunca antes a água

olho mais longe tudo
e acerco-me

e é mais perto que percebo
que tudo é longe demais

sexta-feira, 2 de março de 2018


é noite
e chove sobre a humanidade

gritos de sangue e dor
debatem-se na água das poças e na lama

hoje a vida suspende-se por instantes

olhares de água e mãos de vento suadas
entram pelas casas dentro:

pedem-te lágrimas de silêncio.

apaga a lareira. põe-te fora de casa
e arrefece. enche-te de frio e adoece:
quanto faças em nada se aproxima
ou acrescenta:

no lado de lá da vida
a morte pulsa como um vulcão

tu que andas lá fora

e não toco não vejo
e só na chuva vislumbro

ou na luz dos candeeiros
mortiça de noite
e difusa

aquele
que não dorme

 

quinta-feira, 1 de março de 2018

(Extractos)

Um poema dirige-se, antes de mais, não àquele que o lê (o leitor), mas àquele que o escreveu. Interroga-o. Interroga-o a partir do seu silêncio. E esta interrogação provoca-lhe um estranhamento e um sobressalto. Estranhamento e sobressalto são essenciais para o carácter encantatório que caracterizam o poema digno deste nome. E porque o encantamento abre o silêncio, não o fecha, ele inaugura no mundo uma presença, mais precisamente, a daquele que anda lá fora na chuva. Aquele que nunca dorme.
Mas quem é o poeta? Digo que poeta é aquele leva o poema consigo. Aquele que o leva numa algibeira ou talvez no coração, e que o leva para onde quer que vá, o transporta e carrega. E onde quer que vá o edifica no meio dos outros homens, como a palavra que traz em si uma iluminada revelação. O poeta é, pois, um estrangeiro. É estrangeiro, porque essa é a condição daquele que carrega o poema: aquele que é estranho a si mesmo