poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

             oração para estes dias


hoje
peço-te perdão
por não ter sido como tu

de ter sido igual
a tantos outros

de não ter escrito nas paredes
palavras que resistam
à indiferença e ao ódio

e de assim
não ter ouvido
o que tens para dizer-me
na boca de um estranho

por outras palavras
na minha janela embaciada

só encontrei
o meu nome escrito

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

              para paxi

sim
eu sei
todos morremos
e eram apenas canções
o que dizias

não nos falaste
daquelas coisas certas
que habitam janelas fechadas

era outra
a tua ferida

e era grande
e não choveu

no meio de tudo
um homem quase normal

nem milagres
nem frases eloquentes

na boca ressequida do vinagre
fechou os olhos

e morreu


                 (in "a noite que nenhuma mão alcança", 2018)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019


havia um mar

mas apenas tu e eu
seguíamos pela areia. e as
tuas mãos tinham barcos

as minhas cordéis e balões
de brincar. era estranho
mas o que era acontecia

e era por dentro
que aquela coisa era
e eu sabia.

depois tirei do peito
uma luz
que era um nome
e por isso tu não a vias.

queres? perguntei

era talvez Deus
e afundou-se

o mundo
                in "a noite que nenhuma mão alcança", 2018
aos que não têm
não são
não podem

e arrastados seguem
por todos os rios do mundo

o sangue a carne
isso que me dói sempre
e contudo

e este não obstante conforto
de vidas tão desiguais

os nomes os números
os infindáveis sacrificados

os que não importam
nem sabemos

o seu nome

               in "a noite que nenhuma mão alcança", 2018

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

tu que estás à esquerda
de mim mesmo

nem antes nem depois
do que se move
e caminha em nós

como se fosse sempre
domingo à tarde

cada poema
encontra Deus lá dentro


domingo, 15 de dezembro de 2019


                       oração

porque caminhas a meu lado
é sexta e sábado

e porque ao domingo
descansas

porque ao domingo
te moves em silêncio
e não te vejo

porque ao domingo
os dias são mais distantes
e não te ouço

porque ao domingo
sou mais pobre

e não sou nem quero
ser mais que um pássaro
na tua mão

não peço mais
nem menos

a conta justa
e a medida certa