há dias disseram-me
que não há nada de útil
na minha poesia
e eu concordei
todos os dias
a limpo de utilidades
e outras coisas
demais
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
do livro "Onde" (2001)
Sentei-me entre os
calmos animais da
terra
e vi que estavas
entre eles
e depois deles,
e que o teu peso
vinha das coisas,
embora por dentro as
suportasses,
e que havia uma
clareza nos animais,
uma ignorância de não
saber
nem querer,
o encanto de existir
apenas
sem porquê,
e que eram claros os
seus olhos
e os gestos,
e que no seu coração
uma luz
havia
e eras tu.