poesia, Carlos Lopes Pires

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

há dias disseram-me

que não há nada de útil

na minha poesia

 

e eu concordei

 

todos os dias

a limpo de utilidades

e outras coisas

 

demais

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

desci na água

 

e desenhei o teu rosto

a partir do meu

 

cobri-me de água

 

e era uma casa

tão grande

e do tamanho

 

do mundo

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

                         para o meu gato patitas


tão cedo desta vida

e tão depressa em dor

uma rosa da outra

te levou


que nenhuma

luz no caminho

agora


te conduz

a nossa casa

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Deus está em dez mil

lugares diferentes

 

foi o que disse

o rouxinol

 

mas nenhum se parece

com os lugares

daqui

domingo, 7 de fevereiro de 2021

quando era muito menino

acreditava nos pássaros

e em tudo

 

o que neles se move

 

depois

vieram as paredes

e outros lugares sem portas

 

mas foi no azul e chuva

que encontrei

 

a tua sombra

sábado, 6 de fevereiro de 2021

senhor

 

tu nunca escreveste

por linhas tortas

 

nunca passaste por nós

como se evitasses a chuva

 

nem paraste à noite

entre duas paredes

sem sombra

 

não prometeste

um mar de rosas

                               do livro "Onde" (2001)


Sentei-me entre os

calmos animais da terra

 

e vi que estavas entre eles

e depois deles,

 

e que o teu peso vinha das coisas,

embora por dentro as suportasses,

 

e que havia uma clareza nos animais,

uma ignorância de não saber

nem querer,

 

o encanto de existir apenas

sem porquê,

 

e que eram claros os seus olhos

e os gestos,

 

e que no seu coração uma luz

havia

 

e eras tu.