poesia, Carlos Lopes Pires

sábado, 1 de outubro de 2022

eu cresci

a brincar com longe

 

nos insectos nas ervas

e na lua

 

longe e eu

fazíamos longes

de tudo

e mais alguma coisa

 

quando

me tornei poeta

quis mostrar aos outros

que longe

é múltiplo do perto

 

e assim

os meus filhos

são múltiplos de mim

até perder de vista

 

há também

a fábrica do tudo

 

mas hoje

não vou falar dela

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

sentei-me

e abri as mãos

para que viesses

 

e tu vieste

 

tu vens sempre

com o sol

ou através da chuva

 

depois fechei

os olhos

 

e fechei-os tanto

para que não te fosses

 

que desde há muito

já não te vais

 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

se havia mar

não dei por ele

 

era talvez verão

 

ou outra coisa

que ainda não fosse tarde

 

setembro sobre os muros

o sol através das mãos

 

e a vida desprendia

um sossego muito antigo

 

era aí

que eu dormia

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

leva-me contigo

tristeza

 

pelos charcos silenciosos

das rãs

 

às mãos abertas

dos amigos

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

eu sei um verbo

de cantar com os pássaros

 

e conjugo o infinito

numa só gramática

 

e tenho uma tabuada

de cantar com os pássaros

 

eu multiplico

eu adiciono

 

mas nunca divido

ou subtraio

 

cantar com os pássaros

domingo, 21 de agosto de 2022

encosto a minha tristeza

a uma árvore

e dou-lhe um nome

 

por exemplo

estrela janela

gato

 

depois subo-a

e vejo por ela o mundo

 

é quando te recordo

mãe

 

e de quando me dizias

com carinho

 

estamos de passagem

filho