poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 2 de abril de 2024

ó Deus

que vives sem lugar

 

e que nem

o nome te pertence

 

e aquele que traz

uma flor para dar-te

 

para dar-te

como se em ti

houvesse mãos

 

e se houvesse

seria um coração

igualzinho ao nosso

 

este que deveria

servir-nos para amar

 

não a ti

mas aos outros todos

 

e que afinal

e depois

 

só nos serve

para morrer

segunda-feira, 1 de abril de 2024

todos os dias

rasgo o meu coração

 

para encontrar-te

 

dizem que é

uma metáfora

 

mas desde há muito

que no meu coração

só há

 

o teu retrato

sábado, 30 de março de 2024

crucifica-me contigo

jesus

 

frente a frente

 

num lugar muito alto

e com os olhos muito abertos

 

uma flor azul

na boca

 

azedas

no coração

quinta-feira, 28 de março de 2024

em breve jesus

irá morrer

 

foi a sua escolha

 

não morrerá

por nós

 

nem por qualquer

outro mito urbano

 

entre o fácil

e o iníquo

 

ele escolheu

o caminho do bem

 

e na morte

a única pergunta

que fez

 

e tu

sábado, 23 de março de 2024

 

acabaram-se as visitas

 

nestas casas não pousam

pássaros

 

onde havia uma eira

já não se contam estórias

 

a rã não se deixa apanhar

e foge de nós

 

a fonte

e depois os muros

e uma árvore muito grande

sucumbiram todos

com as crianças

 

foi-se a sombra

que as seguia

 

não há mais visitas

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

quero levar-te

por onde eu vá

 

mostrar

como tu iluminas

tudo por onde passas

 

e que vejam

e que saibam

que a luz

 

toda a luz vem de ti

 

dizem que poderá ser

dos meus olhos

 

mas é no meu coração

que há muito

te iluminaste

domingo, 11 de fevereiro de 2024

eu nasci de um pai

e de uma mãe

 

nasci no cosmos

 

nasci do amor

concreto

numa casa

de onde se via o céu

 

e ao nascer

no cosmos

 

da minha casa vi

no infinito

um lugar sem

nome