poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

 

não esperarei por ti

 

não há comboios

para a tua inexistência

 

nada nos conduz

à tua porta

 

não estás em algum

outro lugar do mundo

e nós dizermos

ah estás aqui

 

repito

damos as mãos

e passeamos as sombras

domingo, 17 de maio de 2020


hoje de manhã cedo tive uma conversa com um pequeno bando de pardais, que se refastelavam numa das nespereiras do quintal. continuo sem entender como falaram comigo, mas fizeram-me seis revelações.


primeira revelação: os poemas não são palavras: desenham palavras num espaço inexistente.

segunda revelação: os poemas fazem existir coisas que antes não existiam, embora quisessem existir, e por isso andavam à chuva.

terceira revelação: o mundo é uma coisa demasiado grande para poder fazer-se com apenas duas palavras. por isso foi criado com uma.

quarta revelação: um dia haverá um poema que nenhuma palavra poderá dizer, porque dirá as palavras todas, e nenhuma ficará de fora.

quinta revelação: um poeta não arranja palavras para fazer um poema. ele procura rosas entre os pássaros.

sexta revelação: o poeta é um trocador de rosas. vive num pássaro.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

o meu coração
seja por ti pesado

e seja
o vulto de uma rosa
ou a pena de um pássaro
por ti

e por ti perdoado

dá-me assim as cores
e nelas a gratidão

dá-me quietude
quando o meu coração
por ti pesado

quarta-feira, 25 de março de 2020

mas se foste tu
quem tudo fez

incluindo a luz
e a sombra que todos
os animais carregam

em que parte
da tua criação

se abriram
as minhas mãos

domingo, 22 de março de 2020

foi-lhe dito por uma voz
que parecia vir
do céu

foi-lhe dito

foi-lhe dito
que eras tu

e acreditou

domingo, 9 de fevereiro de 2020

sobre o chamado dia D, desembarque aliado nas praias da normandia, onde estive por diversas vezes.



alguns levavam rosas

mas era uma coisa tão forte
que havia lá fora
e era a morte

era uma coisa cega
que repetia e repetia
uma ferida muito funda

que era uma canção de embalar
que era a morte

alguns levavam rosas
e a boca aberta
no coração

mas a coisa cega
repetia e repetia

até à morte

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

dias bonitos os que tenho
passado em tua casa

como posso ser tão
mal-agradecido

as coisas que me trazes
das tuas noites de abundância

que são tantas
a encher-me o coração

que nada me falta
mesmo se não estás

como posso ser
tão cego