poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

caminhei a noite toda

para te ver

 

e de cada estrada fiz

um deserto

 

de cada casa um

destino

 

de cada desconhecido

um irmão

 

de cada parte de mim

um lugar

 

e de cada dia

uma vida inteira

 

esta noite

fui visitado por um anjo

 

e ele disse-me

 

cala-te

e vem comigo

ao grande sítio das coisas

que não há

 

das coisas que cantam

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

chegas aqui

e dizes

 

não te conheço

 

é assim que a vida começa

 

uma casa uma sombra

ou era uma vez um rio

 

só depois o corpo

nomeia tudo o que

não conhece

 

o som das videiras

o porquê das coisas

um abraço

um beijo

 

um caminho que fazes

e que talvez seja

o teu regresso

 

a mão escondida

é a tua profecia

domingo, 2 de agosto de 2026

 

era uma vez um menino

de que ninguém dirá

esteve aqui

 

era uma vez um menino

de pés mãos olhos

e até uma boca

e tudo o mais

 

e dele ninguém dirá

esteve aqui

 

porque subiu

deixou o corpo

foi ver o mundo

 

e depois voltou

com uma ferida

no coração

 

morrer é como ir

apanhar maçãs

 

subir muito alto

 

subir até perder de vista

cá em baixo

 

subir tão alto

que mãos e pés

 

os olhos e o coração

também

 

já só caminham

por todo

o lado

 

a água inclinou-se

na fonte

 

o vulto de uma mulher

apagou-se da janela

e do sol

 

a mãe amamentou o filho

e os pés que dele cresceram

 

vi-o construir uma casa

 

e depois ruir

em cada quarto

 

a poesia

é uma grande solidão

disse a luz

ao coração