eu sei mãe
que não querias
que envelhecesse
e por isso
me conservaste sempre menino
nos teus olhos verdes
e quando na hora da tua morte
te dei uma mão cheia de balões
eu sei que o teu aperto
era uma dor
sem nome
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
crucificado sejas
no dia de cada um
em cada aldeia e lugar
e na sombra das igrejas
crucificado
na nossa memória curta
e por nossa salvação
embora nenhum de nós
realmente te reconheça
e crucificado por isto
e por aquilo
por uma coisa ou outra
que todas as rosas servem
para odiar o próximo
tão estrangeiro foste e és
dentro de nós
quando lhe disseram que os seus poemas não são literatura/ nem se coadunam com as linhas da renovada poesia moderna// ele respirou de alívio/ encostou-se ao pessegueiro do quintal e sorriu para algumas abelhas/ que por ali andavam// juntou nas mãos um pouco de chuva da noite anterior/ e em duas abriu as mãos/ para que não se fizesse ainda tarde/ nos dois lados do mundo/ que eram um só no seu coração// e foi então que alguém lhe disse/ que também não há pessegueiros no seu quintal// mas como pode isso ser verdade/ se no meu quintal nunca me falta nada