poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 25 de junho de 2021

eu sei mãe

que não querias

que envelhecesse

 

e por isso

me conservaste sempre menino

nos teus olhos verdes

 

e quando na hora da tua morte

te dei uma mão cheia de balões

 

eu sei que o teu aperto

era uma dor

 

sem nome

plantei uma árvore

no quintal

 

e vieram pássaros

 

desenhei uma noite

na parte de cima do azul

 

e vieram estrelas

 

então

desenhei uma rosa

 

e eras tu

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

                            poema para elis, hoje nascida


poderia haver uma estrela

ainda sem o teu nome

 

um lugar que não fosse

conhecido dos homens

 

ou uma árvore cujos frutos

fossem diferentes

em cada mão

 

laranjas maçãs nêsperas


domingo, 20 de junho de 2021

crucificado sejas

no dia de cada um

 

em cada aldeia e lugar

e na sombra das igrejas

 

crucificado

na nossa memória curta

e por nossa salvação

 

embora nenhum de nós

realmente te reconheça

 

e crucificado por isto

e por aquilo

 

por uma coisa ou outra

que todas as rosas servem

para odiar o próximo

 

tão estrangeiro foste e és

dentro de nós

os homens são animais

sem remédio

 

constroem estradas

que levam aos lugares

dos confins

 

mas não encontram

um único caminho

 

viajam até às estrelas

mas não olham a estrela

que há nas suas mãos

 

querem ser eternos

em vida

 

mas não compreendem

na morte

a própria vida

sexta-feira, 18 de junho de 2021

quando lhe disseram que os seus poemas não são literatura/ nem se coadunam com as linhas da renovada poesia moderna// ele respirou de alívio/ encostou-se ao pessegueiro do quintal e sorriu para algumas abelhas/ que por ali andavam// juntou nas mãos um pouco de chuva da noite anterior/ e em duas abriu as mãos/ para que não se fizesse ainda tarde/ nos dois lados do mundo/ que eram um só no seu coração// e foi então que alguém lhe disse/ que também não há pessegueiros no seu quintal// mas como pode isso ser verdade/ se no meu quintal nunca me falta nada

quinta-feira, 17 de junho de 2021

há quem só acredite

em grandes milagres

 

eu creio nos pequenos

milagres do meu quintal

 

como quando um pássaro

regressa ao ninho

 

e chove

por entre as rosas