poesia, Carlos Lopes Pires

domingo, 6 de fevereiro de 2022

começarei de pé

e junto à tarde

 

na primeira palavra

haverá uma imagem tua

em que eu ainda

não estou

 

a segunda palavra

e a terceira

 

e por assim dizer

as palavras todas

 

tratarão da ausência

do sol

e de como

nunca cheguei

 

a ficar na foto

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

se quiseres dar-me

da tua água

 

dessa ausência onde

nada falta

 

desse tão silêncio grande

que abunda no coração

das aves

 

e que depois cantes

 

que cantes ainda

em silêncio

 

que cantes

no meu coração

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

há uma gaivota

sem nome

que me visita

 

às vezes penso

 

que tudo nela

é grande demais

 

para que não seja

infinito

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

hoje li um livro

que me falava de água

 

por que motivo

todos os livros

me falam

de ti

sábado, 15 de janeiro de 2022

encostei

o meu coração ao teu

e pensei que era um só

 

e desde então há muito

que vivo no teu coração

 

ou talvez sejas tu

 

ignorantes os dois                 

tão cegos portanto

 

indo e vindo de toda a parte

que onde um vai

o outro está

 

este tão grande desconhecimento

da impossibilidade

 

até que a morte

esclareça o mistério

sábado, 1 de janeiro de 2022

uma vez alguém perguntou ao poeta da ignorância

 

 

escreves para alguém?

sim, para ninguém

 

e onde está ninguém?

está ausente

 

e como é?

não sei

 

e como sabes que está, se é ausente?

a sua ausência impõe-se a tudo

 

é então uma ausência presente?

não. é de uma completa ausência.

tanta que me ocupa em todo o lado. é um sem-lugar

 

mas esperas um dia encontrá-lo?

Já encontrei

 

não entendo…

também eu não

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

                              aos amigos


 

hei de deitar-me

a teu lado

para que nunca te vás

da minha vida

 

assim

como quem morre

pela primeira vez

 

e ainda não conhece

a chuva

 

nem das rosas

o abandono