começarei de pé
e junto à tarde
na primeira palavra
haverá uma imagem tua
em que eu ainda
não estou
a segunda palavra
e a terceira
e por assim dizer
as palavras todas
tratarão da ausência
do sol
e de como
nunca cheguei
a ficar na foto
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
encostei
o meu coração ao teu
e pensei que era um só
e desde então há muito
que vivo no teu coração
ou talvez sejas tu
ignorantes os dois
tão cegos portanto
indo e vindo de toda a parte
que onde um vai
o outro está
este tão grande desconhecimento
da impossibilidade
até que a morte
esclareça o mistério
uma vez alguém perguntou ao poeta da ignorância
escreves para
alguém?
sim, para ninguém
e onde está ninguém?
está ausente
e como é?
não sei
e como sabes que
está, se é ausente?
a sua ausência impõe-se a tudo
é então uma ausência
presente?
não. é de uma completa ausência.
tanta que me ocupa em todo o lado. é um sem-lugar
mas esperas um dia
encontrá-lo?
Já encontrei
não entendo…
também eu não