há poetas que escrevem
para a
literatura
eu escrevo
para estar
contigo
para que
mesmo depois
da minha
ausência
fique uma
dádiva
de
abundância
(a noite que nenhuma mão alcança, 2020)
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
falta-me sempre distância
quando
tento explicar
que a minha
poesia
é uma
questão de ausência
e não me
falem de literatura
falem-me
antes de um homem
que teve
um gato
e dos seus
poemas tristes
porque a
tristeza
é um dom
da abundância
e foi
criada
ao
terceiro dia
para que
nunca estejas só
e tem
desenhos na areia
tem
feridas abertas nas mãos
uma coisa
que dói
no coração
da madeira
(onde crescem as maçãs, 2020)
hoje
venho
falar-te de abundância
e abro-te
as mãos
abraço-te
multiplico
a água
por muitas
vezes pássaros
e vou por
onde vou
com os pés
as mãos
os olhos
que tudo
me guia até ti
e transporto-me
em abundância
ao teu
coração
semeio
e movo as
sementeiras
para que
me digas
para que
me fales
para que
me tenhas
sempre
contigo
(onde as maçãs crescem, 2020)