poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

imagina alguém que sobre o seu rosto coloca camadas de efeitos e produtos a que chamam cosmética. isso é o mundo em que vivemos e é, igualmente, o que define a poesia literária. essa cosmética pretende propor cambiantes e aparências e assim representar o mundo, a partir de uma espécie de ilusionismo. quando os poemas não são literários, o que fazem é retirar essas camadas, para que o mundo possa falar. um poema escuta o mundo. não o representa. é também por isto que à poesia com literatura falta ética do bem. o poema é um acontecimento do mundo dentro da linguagem

 

7

 

no ponto mais alto

 

na pobreza

do gato

 

naquela eira

onde fui esperar

o mundo

 

incendeio-me

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 

5

 

se encontrares

um vaga-lume

 

lembra-te

que ceguei

 

ampara-me

 

pai nosso

e dos insectos

 

que nos dás

um dia de cada vez

 

que pode ser

o último

 

na ladainha

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

44

 

quem quiser fique

com a

taça

 

e com ela faça uma

casa um atalho ou

um baraço

 

pois através dela

eu vejo

 

os caídos os

derrotados os que

ficaram a meio

 

aqueles que

durante a subida ficaram

na paisagem

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

 

266

 

paul celan cavou no chão

 

nem flores nem pás

saros

 

apenas mortos

 

num quarto muito

escuro rezou

a um deus com os

nomes desses mortos

 

depois abriu

uma janela no mundo

 

e voou

para a terra de

ninguém

 

olá

terra de ninguém

domingo, 13 de setembro de 2026

perguntaram-me o que é "silêncio". silêncio é a presença anterior e posterior ao tempo, dentro e fora do espaço, que não começa nem termina, pois não tem causa, nem é causador. e a presença fala. a presença somos nós a falar e a pensar. a presença move-se: é o pássaro. a presença manifesta-se: é a luz. a presença não ouve, não deseja: somos nós. o silêncio não é aquilo que permanece quando tudo se cala. é aquilo que permanece porque tudo, inclusive o que fala, lhe pertence.


silêncio é a presença sem intenção