poesia, Carlos Lopes Pires

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

quero levar-te

por onde eu vá

 

mostrar

como tu iluminas

tudo por onde passas

 

e que vejam

e que saibam

que a luz

 

toda a luz vem de ti

 

dizem que poderá ser

dos meus olhos

 

mas é no meu coração

que há muito

te iluminaste

domingo, 11 de fevereiro de 2024

eu nasci de um pai

e de uma mãe

 

nasci no cosmos

 

nasci do amor

concreto

numa casa

de onde se via o céu

 

e ao nascer

no cosmos

 

da minha casa vi

no infinito

um lugar sem

nome

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

as metáforas

são coisas sobre

outras coisas

 

nos meus poemas

não há coisas

encavalitadas

 

se digo escaravelhos

é escaravelhos

 

se digo sol

se digo muros

 

a nada mais me refiro

 

os anjos dos meus poemas

não são pássaros

nem vaga-lumes

ou aparições

de almas penadas

 

não são

candeeiros da cidade

 

são apenas anjos

 

igualzinhos a ti

e a mim

 

só que voam

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

bonitas são as rosas

que não são colhidas

 

os barcos que não têm

destino e seguem caminhos

que não podem ver-se

 

as mãos de alguém

que te alcançam

e tocam

 

e no teu corpo

ficam tão quietas

 

até que partem

leves e desertas

 

em ti deixando

sinais ou marcas

 

de um desenho

 

que nenhum mapa

poderá saber

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

aqueles que seguem

outras estradas

 

não são diferentes

de ti

 

são apenas irmãos

que se afastam

 

também

eles procuram

lugares desertos

domingo, 31 de dezembro de 2023

 

Sê clandestino: segue a pista

 

 

Seres clandestino não significa andares escondido ou destruires o que está instituído. Seres clandestino significa seres autêntico. E é só porque ser autêntico é tão raro, que o mais das vezes provoca estranheza e leva a que se esteja por fora da realidade formal ou mundo instituído, o da normatividade, da banalidade.

Ser clandestino significa encontrares um desígio pessoal, teu, de mais ninguém, que podes partilhar, é claro, mas sempre compreendendo que não podes impôr o que não te pertence. Portanto, ser autêntico é em relação a este designio pessoal, e que não se confunde com as risíveis manifestações panfletárias.

Ser clandestino custa. Em geral, terás de prescindir das atribuições possíveis de méritos, de reconhecimentos por parte de pessoas ou grupos que cultivam a normatividade. Podes até aceitá-los, mas sempre ciente, sabedor de que não deixas que te roubem o espírito clandestino, porque sabes que não passam de entretenimentos perante a tua viagem única. Aprende que ser clandestino não é um atributo deste mundo. É uma escolha ética que tu fazes em teu próprio nome. E na história da humanidade não estarás só: muitos outros, antes de ti, fizeram essa escolha. É longa a linhagem que não acaba em ti. Se quiseres, segue essa pista.

Ser clandestino chega a doer quando observas o triunfo dos medíocres. Pessoas sem talento, imaginação ou inteligência hão de passar-te à frente. Por que te espantas?: Elas estão por toda a parte. São a maioria. Mas escuta-te: tu nasceste sem princípio e podes construir a tua ausência. Não precisas de mais nada. Basta que te cales e busques em ti o espírito do gato: nunca desistas da autenticidade. O mundo que te deram é apenas uma versão da realidade. Há outras possíveis. Segue a pista.

Ser clandestino é seguires o caminho do bem. E que por onde quer que vás levas contigo uma mensagem cósmica. Não sigas religiões ou livros adjacentes: apenas querem roubar-te a alma. Não queiras seguir santos, mestres ou gurus: são todos imitações uns dos outros. E não sabem nada que tu já não saibas: o mundo é um mistério e a existência um prodígio. Não deixes que te encerrem no seu quarto escuro. Crucifica-te na tua cruz e salva-te da banalidade. Eleva-te ao lugar mais alto que possas imaginar e faz da tua vida uma existência generosa e afável. Segue a pista.

Talvez os teus amigos não te ouçam, talvez não compreendam. Ou talvez sejas tu que não te explicas ou não compreendes toda a grandiosidade que recebeste. Não importa: recorda que no cosmos nada está fora de ti. Que cada coisa ou partícula já um dia foram como tu. E tu simplesmente estás de regresso.

Clandestina-te. Segue a pista

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

quem nunca

me deu a mão

 

não conhece

os meus abismos

 

não sabe

destas estradas

 

os seus espinhos