benditas as crianças da chuva
que se movem na lama
sem queixumes
que não pedem não exigem
não rezam
e silenciosas
pela água vão
creio que existe em cada um de nós uma zona, um espaço, uma coisa que jamais conseguimos tocar. algo que não conseguimos expressar. uma espécie de segredo. algo que adivinhamos, pressentimos, mas que não sabemos. a isto chamarei o ponto cego da existência. é este ponto cego da existência que dá às coisas um mais-que-as-próprias-coisas. mais que uma sombra existente em cada coisa, o ponto cego da existência revela-nos uma presença
creio em tudo o que cai
creio na harmonia do chão
e seus derivados
creio nas formigas
não creio na gramática
do que está em cima ou voa
pois tudo os atrai para baixo
mas creio no silêncio
que é uma criatura do chão
assim os insectos
que se movem entre as coisas
e as tuas mãos de lama
creio no pó das estradas