poesia, Carlos Lopes Pires

sexta-feira, 1 de março de 2019

a amizade
não é uma coisa
que venha com o tempo

é uma agricultura
de plantar semear cuidar
mas tem coisa de mistério
e floresce
onde não há

então agora explico

os amigos
têm o dom da abundância
fabricam os segredos da água
indicam o misterioso rumo às aves

os amigos
fazem crescer as árvores

                                 (In a noite que nenhuma mão alcança, 2018)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

sábado, 23 de fevereiro de 2019

sei de um homem que tinha um gato
e sei do seu desgosto

conheci-o
quando ele ainda não tinha
palavras  para essa dor

e um dia sentou-se no frio
com a noite inteira nas mãos
porque o gato não veio
dessa espera

e vi-o depois calar-se
não porque já não lembrasse

mas porque silêncio
é a palavra que mais dói

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019


é um azul tão longe
 
esse país onde dizem
que as árvores dão frutos
do tamanho da água
 
cidades luminosas
onde cabem todos
os que não têm lugar aqui
 
e por essa sorte fomos
em barcos
de suor e miséria
 
e nela cavámos
uma ferida aberta
 
no coração

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

vi amigos desentenderem-se
e pensei como isso é triste

como é triste
termos uma só vida
para passos e mãos
que se afastam tanto

não termos
mais que uma janela
e nós lá fora
como vultos na paisagem

sim é triste e é pena

darmos nomes
e não sabermos nada
do que está lá dentro

e sofrermos cada um
por seu lado

mas nunca no coração
do outro

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

                       prece

ó Deus
dá-me a medida
de tudo o que é silêncio
e em silêncio é
 
a chuva de todos os dias
e os vultos nas paisagens
 
uma vida azul
e simples

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019


não sei esquecer-te

constato-o em cada dia
quando digo os nomes
do livro das minhas faltas

uma longa e funda ferida
de onde vejo o mar
numa paisagem repetida
e sem barcos

agora é uma viagem
num caminho onde já não estás
um verbo para uma palavra
tão inútil

não obstante o coração dizer-me
uma e outra vez

que nunca de lá saíste

                   (para Ana e Fulvio)