poesia, Carlos Lopes Pires

terça-feira, 17 de maio de 2022

eras tu

aquele rastro

que conduzia a luz

 

e era minha a mão

que nela se movia

 

mas nada fora

e nada dentro

 

uma só luz

o mundo

domingo, 27 de fevereiro de 2022

ainda preciso de ti

porque me dás quase tudo

 

o nervosismo das manhãs

e a incerteza das noites

 

mas sobretudo

o que falta em cada uma

das minhas mãos

 

hoje sei

que tudo em mim

é um lugar desocupado

 

e que tu vens

pela areia adentro

 

devagar e depois

 

como se fosses

o mar

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

chegam-me

de todo o lado

e a toda a hora

 

falam de ti

 

de como cresces

no meu quintal

 

de como caminhas

com os gatos

 

de como moves

o vento e as nuvens

 

tu cresces

tu multiplicas

domingo, 6 de fevereiro de 2022

começarei de pé

e junto à tarde

 

na primeira palavra

haverá uma imagem tua

em que eu ainda

não estou

 

a segunda palavra

e a terceira

 

e por assim dizer

as palavras todas

 

tratarão da ausência

do sol

e de como

nunca cheguei

 

a ficar na foto

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

se quiseres dar-me

da tua água

 

dessa ausência onde

nada falta

 

desse tão silêncio grande

que abunda no coração

das aves

 

e que depois cantes

 

que cantes ainda

em silêncio

 

que cantes

no meu coração

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

há uma gaivota

sem nome

que me visita

 

às vezes penso

 

que tudo nela

é grande demais

 

para que não seja

infinito

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

hoje li um livro

que me falava de água

 

por que motivo

todos os livros

me falam

de ti